Eu não duvido, eu peço, e vae na minha prece
quanto minh'alma tem de puro sentimento...
Talitha, curiosa
Na sua prece?
Ruy
Sim, tão cheia de fervor
como a casta oração que a sua crença augustasoluça de manhã, mais triste que um lamento,
que vae, azul em fóra, ao throno do Senhor,
no murmurio subtil dessa bocca venusta.
Talitha
Eu nunca olvidarei a dulcida ventura
daquella noite densa, atormentada, escura,
em cujo manto negro a sua mão bondosa
rasgou a dôce aurora alegre e luminosa...
O caridoso amor, que os seus labios deixaram
gravado nesta mão que tanta vez beijaram,
foi um sonho feliz numa noite polar,
sonho de primavera em noite sem luar:
nunca mais sahirá d'entre as minhas lembranças.
Como um beijo de mãe na face das creanças,
a primeira affeição nunca se desvanece,
é como a flôr da lenda: a todo o instante cresce!
Se eu a esquecesse, Ruy, como seria ingrata!
Ruy
Talitha, minha vida, a densa cataracta
não poude escurecer a lucidez suprema
da sua alma christã, que vale um diadema
de rainha e de santa, a cujos pés se inclina
a minha alma que vae sobre a esteira argentina
que o seu vestido traça ao longo da jornada,
como no azul do mar as velas da jangada...