E se a vela, batida ao vento da desdita,
levar á sombra eterna essa infeliz Talitha
que a sua mão salvou da mesma sombra eterna?

Ruy

Irei onde ella vá. Se a aragem fôr galerna
e o nosso amor levar a gondola encantada,
sobre o dorso da vaga em branca espumarada,
eu seguirei, sonhando, á prôa, na epopêa
que o seu divino olhar de candida sereia
ha de inspirar, sorrindo, a quem o illuminou.
Se o vento arremessar a vela que enfunou
á rude penedia e sossobrar a barca,
hei de salvar, então, a pequenina arca,
onde vive encerrada a pomba da alliança,
que faz do nosso amor uma alegre esperança!

Talitha

Apenas esperança, e nada mais! A vida
é um sonho que passa e foge; perseguida,
occulta-se a esperança á sombra de um asylo,
tão occulto tambem que, para descobril-o,
desfaz-se muita vez ou rasga-se em pedaços
a nossa fé mais pura e a crença, em estilhaços,
desapparece e vae, por esse mundo fóra,
como nuvens no céo ao despontar da aurora...

Ruy

Porque razão, Talitha, os nossos pobres sonhos
não poderão florir, alegres e risonhos,
á plena luz do Sol?

Talitha

Sonhos são illusões
que a madrugada esbate em limpidos clarões,
e nada mais... Talvez as suas, sim!... As minhas
irão fazer o ninho á sombra... As andorinhastem que mudar de clima ao começar o inverno,
levando para longe o seu amor materno...
A minha acostumou-se á sombra da cegueira:
se na sombra passou quasi uma vida inteira!
Na sombra adormeceu, na sombra soluçou
e na sombra sorriu... A sua mão rasgou
este sulco de luz no meu perdido olhar,
e a triste, acostumada á sombra tumular,
fugiu espavorida ao lucido lampejo
e tão distante foi, que nem sequer a vejo...

Ruy