É o receio infantil que vem da escuridão!
A esperança, Talitha, ainda um só instante
não sahiu do calor que faz do coração
o ninho aconchegado, o berço palpitante
e o sacrario fiel do nosso casto amor!
Na sombra nasce, e cresce, e vive tanta flôr
sem perder o perfume!... E a esperança, Talitha,
é o perfume do amor, a essencia que dormita
serena e só desperta ao carinhoso afago
dum beijo a murmurar em sonho dôce e vago...

Talitha

Mas antes que o murmurio a despertasse, a luz
do sol lhe recordou que aos olhos de Jesus
e aos pés de sua Mãe ella havia ajoelhado
no fervor da oração, em dia torturado,
prendendo a vida inteira ao brilho de um olhar.
Entre nós dois agora eleva-se um altar,
e eu vejo-me prostrada e envolta no burel,
sorrindo para o céo, por ter sido fiel
á promessa que fiz...

Ruy

E o nosso amor, Talitha,
não foi uma promessa?

Talitha

Ah! foi, mas a desdita
lançou-lhe a maldição no dia em que nasceu
e o nosso puro amor agora feneceu.

Ruy

E a tua mão divina, angelico florão
de algum ciborio astral, a tua mão de rosa
e jaspe é que me vem ferir esta affeição
que banhava em frescor a vida bonançosa
deste meu sonho azul!... Mas quando, em nostalgia,
á sombra do mosteiro, a tua phantasia
volver para o passado esse formoso olhar
tão cheio de candura e te fizer sonhar;
quando a espiral do incenso á curva do docel
subir da tua mão occulta no burel,
como a dôce expressão duma saudade immensa;
quando á noite o luar, vencendo a treva densa,
entrar na tua cella e fôr beijar-te a face,
como se por ventura envolta nelle entrasse
a minh'alma saudosa a visitar a tua:
quando esse olhar divino, em cuja luz fluctua
a pureza vestal da tua castidade,
sorrindo, remontar á dôce claridade
das estrellas no céo, minha gentil Talitha,
recorda o nosso amor, formosa cenobita,
e pensa na tortura intermina e profunda
desta vaga de fel que a minha vida innunda,
medita nesta noite atroz, que me apavora,
e tu me dás em paga a fulgurante auroraque o meu amor te deu, sorrindo de ventura...
Bemdita seja a treva, a noite de amargura,
bemdita seja a dôr, para sempre bemdita,
que vem da tua mão, angelica Talitha!

Talitha, em lagrimas, soluça. Ruy vae para sahir e encontra o Padre que entra. Pausa, durante a qual o Padre, mudo de dôr, fita os olhos, ora em Talitha, ora em Ruy.