Medita, minha filha, e Deus Nosso Senhor
envolva a tua crença em seu divino amor!
Talitha
Pois ouça-me um instante a confissão singela
da incomparavel dôr que a minha vida gela:
Padre senta-se e Talitha ajoelha-se ao lado
Tinha soffrido muito; o immenso desespero
de um dia de tortura, afflictivo e severo,
me fez allucinar e, erguendo para os céos
as mãos de quem supplica, eu implorei a Deus
clemencia a tanta dôr. A noite de flagicio,
que dava á minha vida o aspecto de um supplicio,
parecia sem fim, sem luz e sem aurora.
E, como a flôr que á noite exhala, espaço a fóra,
o aroma delicado e puro do seu seio,
vencendo o meu temor e o natural anceio,
eu dei, como penhor da luz que supplicava,
a minha mocidade e o porvir que eu sonhava;
e prometti á santa e casta Samaritavotar-me para sempre ao burel carmelita...
Mas presenti, depois, que dentro de minh'alma
despontava, sorrindo, uma esperança calma
que innundava de luz o coração da céga,
e commigo pensei:—Deus, de certo, não nega
que veja agora a luz quem sempre foi escrava:
e nesse pensamento a vida concentrava.
Foi quando Ruy me fez a esmola caridosa
de uma dôce affeição que tem a côr da rosa;
e, sem pensar, jámais, em vêr de novo o mundo,
o meu amor cresceu e fez-se tão profundo
que para desprender-lhe as tumidas raizes
eu rasgarei, talvez, mais largas cicatrizes...
Depois a mão de Ruy abriu para os meus olhos
o véo da madrugada e eu vi sobre os escolhos,
toda em pedaços feita, a minha pobre herança,
perdida para sempre a querida esperança
que eu havia sonhado em dias de cegueira...
Se sacrifico o amor pelo burel de freira
eu desço á sepultura em plena mocidade;
se não cumpro a promessa e minto á santidade
do voto que levei á pedra de um altar,
não devo conservar a luz do meu olhar
e rogo novamente a Deus que m'a desfaça
e á Virgem que conceda a pequenina graça
de receber de novo esse penhor tão puro,
deixando-me, outra vez, o mesmo olhar escuro!
Padre
Escuta, minha filha.—A Providencia, ás vezes,
se manda aos corações as dôres e os revezes
não é que se compraza em opprimir as almas
para lhes dar mais tarde as viridentes palmas
do martyrio, não! Não, minha ingenua Talitha.
Eras ainda tu mimosa e pequenitaquando ficaste céga. Abrira para o mundo,
apenas, a tua alma e o teu olhar jocundo
sorria para a luz. Assim, innocentinha,
tu ias de manhã commigo á capellinha
e, emquanto eu murmurava as orações da missa,
tu rezavas, sorrindo, angelica e submissa,
á Virgem que te ouvia, a Salvé Magestosa,
bem como se a rezara o labio de uma rosa...
Desse labio subia um fervor tão intenso
como a espiral azul e timida do incenso...
Depois... faltou-te a luz, mas tu nunca faltaste
á mesma hora de sempre, á missa. E que contraste;
tu, pequenita e céga e o Sol com tanta luz!
Muitos annos pediste á Madre de Jesus
que te restituisse um dia o teu olhar,
como se a Virgem fôsse autora da desdita
que te ferira assim, minha meiga Talitha...
Pois creança, tu crês que a Mãe que soffreu tanto
no dia em que perdeu o filho casto e santo
te pudesse roubar dos olhos transparentes
a luz que illuminava as pupillas ardentes?
Pois ella que te viu de rastros, a rezar,
em todas as manhãs, aos pés do seu altar,
levando-lhe, a sorrir, tantos ramos de flôres,
podia assim voltar a crueldade e as dôres
sobre a tua cabeça ingenua e piedosa,
Ella que foi a Mãe mais dôce e generosa!?
Escuta, minha filha:—o livro do Senhor
descreve que, uma feita, andava na Judéa
o divino Jesus prégando a sua idéa...
Acercou-se do Mestre uma infeliz proscripta
a quem a dôr matara a filha pequenita,
e, em lagrimas, pediu que lhe voltasse á vida
o cadaver da filha extremosa e querida.
Abençoando a mãe que aquella dôr humilha
disse Jesus então: «a tua pobre filhaestava adormecida e agora está acordada;
volta que a encontrarás a rir, já levantada».
E a pobre mãe, que vira a pequenina morta,
depois, ao regressar, foi encontral-a á porta,
sorrindo alegremente, entre as demais creanças,
como um bando gazil de cordeirinhas mansas!
Pois bem, minha Talitha, o teu olhar dormiu
sómente, não morreu. Quando a céga pediu,
á Virgem Mãe de Deus, que um dia t'o salvasse,
o seu divino olhar fitava a tua face
e despertou do somno o teu formoso olhar
que nunca fôra cégo e, apenas a sonhar,
adormecera. E agora, agora que acordou
póde fitar a mão de quem lhe descerrou,
em nome de Jesus, a noite que o toldava,
que te fazia triste e lacrimosa, escrava...
Talitha
E a Virgem que me ouviu quando eu lhe prometti
votar-me ao seu burel, por tanto que soffri,
quererá perdoar a minha negra falta?