Escuta-me, Talitha:

Ruy surge ao fundo e escuta

O coração exalta,
pergunta-lhe o que sente, o que deseja; pensa
muito, muito, em silencio, indaga a tua crença
e faze o que disser a tua consciencia,
mas não esqueças, filha, a dôce confidencia
de Ruy que illuminou o teu escuro olhar,
e lembra-te, depois, que, só por muito amar,
o Christo perdoou á pobre Magdalena.
E agora, que a tua alma está bem mais serena,attende-me!—Rezando adormeci. A aurora
despertou-me, sorrindo, e entrevi, áquella hora,
um sonho que fugia, em busca de outros lares!
Subia docemente, ao claro azul dos ares,
o vulto da Senhora, abrindo pelo Céo
o palio virginal do seu materno véo,
desnastrado o cabello, um manto de rainha
recamado de sóes; a nuvem que a sustinha,
toda cheia de luz, deixava atraz de si
um rastro de fulgor. E eu lembrei-me de ti...
Curvaram-se a tremer as pernas fatigadas,
ao peso esmagador das longas invernadas;
e assim, postas as mãos, olhando para o vulto
da Virgem que eu adoro em fervoroso culto,
pedi-lhe que mandasse um raio de luar
ás lagrimas de fel da tua dôr sem par...

Talitha começa a sorrir

E a Virgem, a sorrir, do seio do infinito,
baixou por sobre o meu um dôce olhar bemdito
e eu vi rolar no azul da immensa vastidão,
no fulgor de uma estrella, o beijo do perdão...

Talitha, correndo para a porta

Ruy!

Encontra-se com Ruy e pára, pudibunda, de olhar no chão

Padre, só, á frente da scena, mãos postas, a olhar para o céo

Perdôa, Senhor, se lhe menti, perdôa;
o meu labio peccou, mas a intenção foi boa!