O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo.
Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys Magos, a transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor.
Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam. Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ, mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita? fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum instrumento, edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz, & sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este bichinho basta.
Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza, porque o principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas, hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto que cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira, & assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo, se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho, as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo, porque o ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro, como o ouo.
No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana, & a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do diuino.
Por virtude do Espirito Santo, tomou o Verbo Eterno carne nas entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.
Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no silencio viue, & com os estrondos, morre.
No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys, que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo se transfigurou, & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue na aluura.
O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro, deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos da immortalidade. Mas he tempo que acabe, & acabo aduirtindo aos discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em cada jeroglifico, se significa hũa virtude.
Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida, & morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia, & o desengano das vaidades do mundo.