Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos da seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho, ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he hũa occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas, que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,[10] se contaõ mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com esta mesma occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, & teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno, & suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se se occuparem neste exercicio.
Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos os mais officios dependẽtes das manufacturas, prometem aos pobres, a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, & riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa, ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente para destruir as nouidades. Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue, que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas; o publico pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França, & Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, & vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas, que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco, seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos, ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras, nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria, & todas seraõ admiradoras da sua opulencia.
Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes, & na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos, folhas de amoreiras, & bichos de seda.
Os bons Ministros dos Princepes, saõ como as Aguias,[11] que da mais sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda, nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas, venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se anticipa a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, & ineuitauel embaraço.
Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos soldados; tambẽ na prudente Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto, solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda, com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a terra em que exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da nação Portugueza, que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que conheceo superior, ao seu poder.
Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, & companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento desta fabrica, não reparando ambos em contribuir largamente para ella com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente.
De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas, que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança nos hombros de tres Atlantes.
As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca do bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, & perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de hum pequeno mundo.
Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares, em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, & telas, breuemente trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel, ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito.
Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte, he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos de contemplação, & admiração, à intelligencia dos Sabios.