Taixão este Liuro em cem reis. Lisboa 27. de Junho de 1679.
Magalhaens de Menezes. Roxas. Basto. Rego.
ADVERTENCIA
AOS
PORTVGVEZES
As artes[7] liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as bases das Republicas, & as columnas[8] dos Imperios; humas se empenhão no sustento da vida, como a agricultura; outras se armão contra as inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria, & felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que nellas se exercitão.
Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens, mas sempre se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que escreue[9] Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio. Mas suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.
As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais misteriosa, he a arte da seda.
A Nobreza desta arte serue de estimulo à altiua inclinação dos Pouos; o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.
Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em muitas cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias, & das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores, nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras.
As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras; chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados, labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, & para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios, retratos da gloria, & hospicios da Diuindade.