Palauras de seda, saõ as que digo a V. A. não só pella summissão com que fallo, mas tambem pella materia, de que trato. A materia deste liuro, he a cultura das Amoreiras, ordenada à criação dos Bichos da seda, (artificioso thesouro das mais opulentas Monarquias,) porque de todas as vtilidades, que a industria & trabalho dos homens, pode grangear, nenhuma se iguala à cultura destas plantas, & à criaçaõ destes insectos.

Duas saõ as fontes de todas as riquezas dos Imperios, a natureza, & a Arte, a natureza nas Minas, & a Arte nas Manufacturas, com esta differença que as riquezas, que se encerraõ nos Erarios da natureza, naõ se alcançaõ senaõ com os grandes dispendios, & trabalhos, com que se abrem as entranhas da terra, se reuoluem os Elemẽtos, & se perturba o antigo silẽcio dos mais profundos Abismos, para delles se tirarem os metaes gerados com as secundas influencias dos Planetas; Mas com muito menòr gasto & trabalho, se conseguem as riquezas, que por meio das Artes se procurão, & sendo a Arte da seda a mais lucratiua de todas as Artes, muito deue Portugal ao cuidado, & generosa liberalidade, com que V. A. solicita a introducção desta Arte no seu Reino, que como aduirtio[2] Plutarco no 2. liuro das virtudes de Alexandre, do mesmo modo, que as plantas frutificão com a clemẽcia dos ares, assim florecẽ as Artes com a munificencia dos Princepes.

Em todas as historias, antigas, & modernas, celebra a fama o zelo, cõ que os Reys, & os Emperadores solicitàrão a introducção das sciencias, & das Artes que elles conhecèraõ proueitosas para a conseruaçaõ, & augmento dos seus Estados; em hum Princepe pois taõ perfeito, como V. A. naõ podia faltar huma taõ illustre excellencia para o estabelecimento desta Arte taõ nobre, & tão vtil ao Reino; quãto mais que para a execuçaõ desta grande empreza, tem V. A. diãte dos olhos os exẽplos dos maiores Potentados da Asia & da Europa.

A cultura, & criação dos bichos da seda, se não conheceo em Europa atè o anno de 700 da Redempção do mundo, no qual dous Mõges[3] vindos da Persia, ou da China, trouxerão a Constantinopla a semente dos bichos, & mostràrão â curiosidade daquella Corte, o admirauel, & quasi misterioso processo da vida daquelle bicho, que nace, quando as Amoreiras começão a se cobrir de folha, se sustenta della menos de dous mezes, atè se cerrar dẽtro de hũ casulo, que forma de si mesmo, architecto, & hospede do seu aposento, donde com prerogatiuas de Fenis, sahe borboleta, a gerar a semente, que se guarda sem nẽhum cuidado, atè se tornar a animar nos primeiros alentos da Primauera.

Foi se introduzindo a criação deste prodigioso insecto na Grecia, pellas ordens do Emperador Iustiniano, mas não passou às mais Prouincias de Europa, porque Italia ocupada de naçoẽs barbaras tinha naquelle tempo perdida a antiga policia, & França, & Hespanha estauão padecendo as rusticas oppressoẽs do mesmo jugo.

Estaua esta Arte tão valida na Asia, que os dous maiores Reinos della, os mais polidos, & melhor gouernados, a saber a China, & a Persia, deuião jà então, & deuẽ hoje a mayor parte da sua opulẽcia, à criação dos bichos, & à Arte da seda.

Na China, se tem porcerto que se achou esta producçam, & da China se repartio por todo o Oriente, toda a prata do Iapão passa à China a troco da seda, & hoje passa huma grande parte da prata do Potossí pellas Filipinas âquelle grande Imperio pellas sedas, que delle nauegão os Castelhanos à America.

A Persia, mete na India a troco de prata, & ouro, Cafilas riquissimas de seda, & por Alepo manda continuamente aos Setentrionaes, Cafilas de seda, que carregão as naçoẽs do Norte, em Alexandreta, & Esmirna nas muitas frotas que sabemos; de forte que, os dous maiores Imperios da Asia, deuem a sua grandeza, a esta rica cultura.

Os Arabes, depois que occuparão a Persia, passarão esta ar e às mais Prouincias que dominarão, à Scitia, & a toda a Asia menor; por elles passou a Hespanha, & se cultiuou em Granada, dõde sahia a melhor seda, que se conhecia em Europa, & elles leuarão esta cultura a Sicilia, aonde ficou, depois que forão lançados daquella Ilha, & dali se cõmunicou a toda Italia.

Em Sicilia, & principalmente em Messina, se cultiua com tanta abundancia, que naquella Cidade, metem os estrangeiros só pella seda em rama, mais de hum milhão & meio de patacas todos os annos, & assim a nobreza daquella Cidade, como a de Napoles, Bolonha, Florẽça, & outras muitas de Italia, deuem a sua sussistencia a esta cultura, porque assim como, em Portugal, a nobreza via ao campo às vindimas, & ao recolher da azeitona; vão là, à criação dos bichos, que fazem com menor despeza, & trabalho, & cõ lucro incõparauelmẽte maior.