Faltaua esta cultura a França, aonde, Henrique IV. depois de cõseguida a paz, quis por este meio introduzir a abundancia: ordenouse huma junta, que sò se aplicasse aos meios desta introducção, primeiro na cultura das Amoreiras, & logo na criação dos bichos, as palauras do decreto com que se passarão as ordens, aos 13 de Outubro de 1602. são as seguintes. El-Rey no seu Conselho, conhecendo que a introducção das sedas, nas terras da sua obediencia, he o mais conueniente remedio para euitar a saida, que todos os annos se faz, de quarto milhoẽs de ouro a terras estrangeiras para a compra das sedas, & por ser conueniente esta introducção ao decoro publico, à occupação, & riqueza dos pouos do seu Reino, depois de ouuir os cõmissarios, & ver as experiencias, & conhecer por estas a facilidade, & vtilidade que virà a nossos subditos, &c.
França hoje entre as gloriosas acçoẽs de seu Rey, conta esta por hũa das mais singulares, por ser hum dos maiores fundamentos de sua riqueza; & suposto que nem todo o Reino he capaz de produzir a seda, he o trato cõmum, & a occupação geral de tres Prouincias, Langadoc, Prouença, & Delfinado, & da Cidade de Turs. Em todas estas Prouincias, creceo o numero da gente, & as Cidades dobrarão o numero das casas, & dos habitadores, & se applicàrão os Francezes de sorte na fabrica das sedas, que não lhe bastãdo a que trabalhão, mandão frotas a Italia, & Esmirna a buscar seda para trabalharem, que depois em obra repartem por toda Europa.
A vista desta vtilidade se applicarão no Piemonte à esta cultura, & hoje tem seda para venderem aos Francezes em Rama, & para muitas fabricas, que tem de excelentes veludos, & damascos.
Naõ necessita V. A. destes exẽplos para se animar à execuçaõ de hũa semelhante empreza, que a razaõ de Estado, a zelo dos Ministros, & o mesmo Ceo fauorece com a benignidade do clima, cõ que fez ao Reino de Portugal mais capaz que todos os da Europa para produsir a seda.
A producção das amoreiras, & a criação dos bichos da seda, hão mister clima temperado, & daqui nace, que entre os Tropicos, & fora de 45. graos ao Norte se não faz esta criação, & se em algumas partes se fas; he com grande trabalho, & com pouco fruto. Depois de 25. graos até 45. se dâ com abundancia esta producção, & daqui vem a abundancia da Persia, que tem as melhores Prouincias nesta altura, como tãbem da China na Prouincia de Nanchim, & nas mais que correm de 25. até 45. ao Norte. Em toda esta distãcia as Prouincias, que estaõ no meio das duas extremidades, que estaõ mais distantes do frio de 45. gràos, & da calma de 25. são as mais benignas, & as mais abundantes na criação dos bichos.
Portugal, começando da foz do Guadiana, atè a foz do Minho, està situado de 37. graos até 42. na mesma altura de Granada, & Murcia, de Messina, & Reino de Napoles, de Alepo, da Persia, & da Prouincia de Nanchim na China, que saõ as partes do Mũdo, que melhor produzem a seda, & com menos cuidado, & trabalho, se dão, & se crião os bichos, dõde se segue, que produzir à Portugal com abundancia esta excellente materia.
Ià desde muitos annos a experiencia o tem mostrado assim, na Prouincia de Tras-os-montes, sem embargo de que he a parte mais setentrional deste Reino, & daqui se pode colher, o que serà, nas Prouincias mais chegadas ao meyo dia, principalmente em Alemtejo, Algarue, & Estremadura, & jà de dous annos a esta parte se tem experimentado esta verdade nesta Corte de V. A. que tem o mais benigno, & tẽperado Ceo, que se conhece na Europa, porque a seda, que se tem tirado dos bichos, que se criarão nas casas, em que se deu principio âs manufacturas, he mais forte, mais fina, & rende mais, que a melhor seda de Italia.
Suposto isto, se Portugal tiuer, (como facilmente pode ter) sedas em abundancia, terâ hum fruto, que não pode ter baxa, nem falta de saca, porque como as Naçoens estrangeiras, não podem criar seda nas suas terras, necessariamente a hão de ir buscar âs Prouincias, onde se cria; & se se criar em Portugal com a cantidade, que pode, virão carregar as suas naos a Lisboa, antes que a Messina, Alexandreta, & Esmirna, achando tanta mais conta na seda de Portugal pella sua bõdade, como pello pouco custo, que farão com huma nauegação breue, de quatro, & seis mezes menos, & menos gasto de conboys, & riscos de Piratas, & terà este Reino que lhe dar a troco das drogas, & fazendas que meterem nelle, succedendo a Portugal o que a França, que lãçando quatro milhoẽs de si, antes de cultiuar, & laurar a seda, hoje recebe muitos milhoens pella que laura, que he em tanta copia, que nam tem, nem produz em si, a quarta parte da que ha mister para as suas manufacturas.
A estas verdades taõ claras como o sol, se oppuzerão nuuens de contrariedades, & sendo as manufacturas da seda vteis a todos os Reinos, pretenderão alguns prouar, que a Portugal saõ perniciosas estas manufacturas.
A diuersidade das opinioens, de ordinario se origina, dos varios fantasmas da propria conueniẽcia, & do mesmo modo que cada Planeta luz com sua propria cor distincta, assim a maior parte dos homems buscão luzimentos com a cor que dão aos seus proprios enteresses; mas porque as cores que se vem no ar, não sempre são intrinsecas, & verdadeiras, mas sô superficiaes, & apparentes, aos olhos dos mais perspicazes Ministros de V. A. parecerão aereas, & fantasticas as cores, com que estes quimericos estadistas pretenderão vestir a fallacia dos seus argumentos.