Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos, que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam sinta o fedor.
Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores, que os dos outros bichos.
Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue, carne, & ossos da vitella, como fica declarado.
Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.
O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de Bombice.
Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos.
NOTAS DE RODAPÉ:
Sicut Apes teneri reparantur cæde Iuuenci,
Hîc super accedit tantum labor; ante Iuuencus
Bis denosque dies, bis denasque ordine noctes
Graminis arcendus pastu, prohibendus ab vndis;
Interea stabulis tantum illi pinguia mori
Sufficiunt folia, & lactenti cortice ramos.
Viscera vbi cæsi fuerunt liquefacta, videbis
Bombicem fractis condensam erumpere costis,
Atque globos toto tinearum efferuere tergo,
Et veluti putres passim concrescere fungos.