Era assim: tinha lutando
No olhar o fogo supremo,
Na voz o poder extremo
Que arrebata a multidão;
Desafiando o inimigo,
Entre as nuvens da metralha,
Era um tigre na batalha,
Na victoria—era um irmão!
III
Termina a luta fervida,
Cae na bainha a espada,
Retorna aos lares placidos
Da terra sua amada,
D'esta que berço e tumulo
Do grande genio foi!
Se nos assaltos bellicos
Distincto era o soldado,
Acções inda mais validas
Lhe destinara o fado:
Desprende a voz, e a patria
Sauda um novo heroe!
Quando se abatem animos,
Medindo a luta immensa,
Quando n'alguns espiritos
Já desfallece a crença,
Surge imponente e mostra-lhes
Raiar nova manhã!
É porque o genio esplendido,
Que a liberdade inspira,
É como a voz prophetica,
Que outr'ora dirigira
Do Egypto um povo misero
Á fertil Canaan!
Quando com olhos avidos,
Em torno a nós medimos
A industria, o bem, a gloria,
Em tudo, emfim, sentimos
Que dera impulso maximo
Seu sopro animador!
Não raro correm lagrimas
De uma saudade infinda!…
Quanto não fez!… quantissimo
Tivera feito ainda,
Se o não roubasse subito
A morte ao nosso amor!
IV
Dorme junto de nós, dorme teu somno eterno
Na terra a que votaste o santo amor fraterno.
Ao declinar da tarde, ao rebrilhar do sol,
Na hora em que descante occulto rouxinol,
Virá tambem do empyreo, alegre philomela,
A tua ingenua filha, a pomba alva e singela,
Esvoaçar gentil por entre o cyprestal,
Soltando hymno inspirado ao somno paternal;
Por que, emfim, quem lidou desde a mais tenra edade,
Em prol do amor da patria, em bem da humanidade,
Quando é chegada a hora, e deixa a terra emfim,
Á entrada do outro mundo encontra um seraphim.
Fevereiro, 5—1866
Bulhão Pato.
End of Project Gutenberg's A José Estevão, by Raymundo Antonio de Bulhão Pato