LEMBRAS-TE?

Lembras-te? frouxa expirava
Aquella doce harmonia
Que em nossas almas entrava.
De uma luz tão resplendente
Teu limpido olhar brilhava,
Como a da aurora nascente,
E aurora gentil sorria,
No meigo azul de teus olhos
Para raiar entre rosas
Fragrantes e sem abrolhos.
Quando mais tenue partiu
A cadencia saudosa,
Tua boca proferiu
Não sei que cortadas fallas,
Que o ouvido não sentiu,
Porque vieste graval-as
Com a voz do ceo no peito,
Que a ti rendido e sujeito
Anhelando t'as ouviu.
Ao proferil-as, dormente
O teu olhar descaíra,
E em teu pallido semblante
A expressão se reflectíra
Dos affectos que agitavam
A tua alma nesse instante.
Ai! nesse instante do ceo,
Que á terra breve fugíra,
Que a elle inteiro volveu!
No horisonte estremeciam,
Ebrias de amor as estrellas,
E teus olhos se fitavam
Na luz scintillante d'ellas;
É que no ceo procuravam
O eterno d'aquelle instante
Que na terra presentiam
Que passaria inconstante.
O alvor da nascente aurora,
Que no horisonte assomava,
Das estrellas desmaiava
A viva luz, e inda agora,
Tenho em minh'alma, querida,
A expressão com que me olhaste
Apontando para ella!
É que essa aurora tão bella
Não brilhava mais na vida!

Janeiro de 1849.

[XXI
]

POIS SER PALLIDA É DEFEITO?

Pois ser pallida é defeito?
E de todo o coração,
Diz, pondo a mão sobre o peito,
Que um rostosinho desfeito
Não pode inspirar paixão?
Ora diga: a rosa é bella
Quando o sol lhe accende a cor,
É bella sim, mas ao vel-a
Desmaiar n'haste singela
Não lhe inspira mais amor?
Viçosa, fresca, orvalhada,
De manhã é toda luz;
Mas á tarde desmaiada,
Co'a pallidez namorada,
Oh! quanto mais nos seduz!
Está convencida vejo,
Deveras não, inda não?
Pois se é todo o seu desejo
Ser corada, dê-me um beijo,
E verá se cora ou não!
Porque esconde o rosto lindo?
Santo Deus! descubra-o já!
Aposto que vai sentindo
Um certo rubor subindo...
Ai! como corada está!
Neste espelho, olhe-se agora,
Veja bem que linda cor;
Quando nasce a fresca aurora,
A luz que a face lhe cora,
Não tem mais vivo fulgor.
Sorri-se a furto, bem vejo,
Occulta o rosto na mão:
Pois vamos, agora um beijo,
Quem cumpriu o seu desejo,
Não merece, diga, não?

Junho de 1852.

[XXII
]

DEVER

Sê bem vinda estação melancolica!
Sê bem vinda! minh'alma abatida,
No teu seio procura essa vida,
Que tão bella, e tão breve passou!
Oh! são estes os campos formosos,
É bem este o deserto mosteiro,
Onde ouvíra o adeus derradeiro
Que teu peito anhelante soltou!
Já nas folhas do bosque frondoso
Se desbota a risonha verdura,
E co'a aragem que á tarde murmura,
Vão caindo dispersas no chão.
Já nos campos de todo cessaram,
Os modilhos da ingenua avesinha,
Que nas moitas espessas se aninha,
Presentindo a invernosa estação.
Que saudade na luz que desmaia,
Nestes campos sem viço nem flores,
Quando á tarde os incertos fulgores
Do sol tibio resplendem no ceo!
Que saudade na aragem agreste,
Que deriva do cimo do monte,
E no azul d'este vasto horisonte,
Onde pallida a lua rompeu!
Foi aqui nestas margens viçosas
Hoje tristes, desertas, sombrias,
Que sorriram os unicos dias,
Para mim de ventura e de amor;
Quando tu inspirada a meu lado
Caminhavas com tremulo passo,
E firmando-te alegre ao meu braço
Davas graças da vida ao Senhor.
Era aqui, junto á cruz mutilada,
Aos extremos reflexos do dia
Quando o sino da ermida se ouvia
Dar signal da singela oração,
Que tu vinhas prostrar-te soltando
Com voz flebil a prece sentida,
Pelo bem, pelo amor, pela vida,
Dos que a sorte deixou na afflição.
E depois nos meus olhos cravando
Os teus olhos de pranto orvalhados
Os protestos mil vezes jurados,
Vinhas mais uma vez proferir;
Nesse esforço baldado do espirito,
Que nas frases da terra procura
Expressar a celeste ventura,
Que sómente se pode sentir.
E pensar que este ceo de delicias
Se acabou para nós na existencia!
Que não temos mais nada que a essencia
Da saudade que d'elle ficou!...
Ver que a mão de um poder sobrehumano,
Nos traz cegos do mesmo delirio,
E votarmos a vida ao martyrio,
Porque o mundo um fantasma creou!!
Pois se Deus quiz ligar nossas almas,
Se é fatal que ellas sejam unidas,
Queres tu desprender duas vidas
Que se acharam irmãs ao nascer?
Vês que foi a suprema vontade
Que as juntou num abraço divino,
E ousas tu, desvairada e sem tino,
Separal-as á voz do dever!
O dever?! O dever mais sagrado
E mais santo que temos no mundo,
É mantermos o affecto profundo
Que d'um sopro divino nasceu;
Attentar contra a sua existencia,
Debelar sem piedade essa vida,
Não será como ser suicida
E affrontar a vontade do ceo!?
Sobre as aras de um templo mentido,
Num altar pelos homens creado,
Vais queimar quanto ha puro e sagrado,
Por um falso julgar da razão!
Sem pensar no teu crer insensato
Que não póde jámais ser extincto,
Este amor tão profundo que eu sinto
E tu sentes co'a mesma paixão!
..................................
Oh! de novo a meu lado, querida,
Volve, em quanto no ceo e na terra,
Nos agrestes perfumes da serra,
A suave estação respirar!
Volve pois, porque as veigas frondosas
Não perderam de todo a verdura,
E inda a mesma infinita ventura
Neste sitio has de agora encontrar.