As orações extremas acabaram;
O filho ao pae traidor, o audaz amante,
Tudo emfim confessou. Rapidas tocam
As horas no seu ultimo momento.
As ondadas madeichas de cabello
Já cairam no chão. O nobre manto
Bordado pelas mãos de Parisina,
Não deve acompanhal-o á sepultura.
Tentam vendar-lhe o rosto, não consente
Esta final affronta. O seu orgulho,
Comprimido no mais intimo d'alma
Pela expressão de fria indifferença,
Acorda nesse instante, repellindo
A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.
«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,
Preso, algemado estou; co'a vista livre,
Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo
No logar do supplicio inclina a fronte.
Ao proferir esta palavra: «Fere»
Brilha o ferro no ar; silvando o golpe
Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,
O corpo palpitante e transtornado,
Pula envolto no pó, que bebe o sangue
Saído em borbotões pelas arterias!
Inda instantes os labios estremecem,
Nos olhos inda fulge a luz da vida;
Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,
Como deve morrer o homem culpado
Que se arrepende no momento estremo,
Elle o seu coração oppresso e triste
A Deus sómente consagrou ness'hora.
A imagem de seu pae, da propria amante
O que eram á sua alma atribulada?
Um sentimento das paixões terrestres
Não viera turbar naquelle instante
A pura contricção do seu espirito,
A não ser quando expondo a fronte nua,
Ao cutello do algoz quiz ver a morte.
Era o unico adeus que proferira,
Ás testemunhas do cruel supplicio.

XVIII

A multidão gelada e silenciosa,
Mal ousa respirar. Alguns gemidos
Cortados, mas profundos, se escutaram;
Nada mais, a não ser o som socturno
Do cutello batendo sobre o cepo.
Nada mais? houve um som, um grito horrivel,
Estridulo, selvagem, semelhante
Ao da mãe, que de um golpe repentino
Vê cair a seus pés sem vida o filho!
O grito de quem foi, de onde partiu?
De um seio feminil, e mais terriveis
Não os solta jámais o desespero!

XIX

Hugo jaz no sepulchro, e Parisina
Dissera acaso eterno adeus ao mundo,
Refugiando sua alma atribulada
No silencio da cella de um convento?
O veneno, o punhal talvez seriam
O severo castigo do seu crime?
Ou succumbira emfim nesse momento,
Em que vira brandir o duro ferro
Sobre a adorada fronte? compassiva
A mão da Providencia permittiu,
Que ao quebrar-se em seu peito confrangido
De angustia o coração, se terminasse
Tambem com elle a fragil existencia?
Não o soube ninguem. Aquella vida,
Ai! de mim! acabára neste mundo
Pela dor como a vida principia!

Setembro de 1856.

[XXV
]

A VALSA

Venceste: sou teu, bem ves
Quão facil foi a victoria!
Cahi-te rendido aos pes.
E sem disputar a gloria.
Aos golpes da tua mão
Expuz logo o coração!
Venceste: sinto nas veias
Correr o sangue agitado:
Todo o fogo do passado
Já nos sentidos me ateias.
Submisso, humilde, sugeito
Ao teu estranho poder
Existe todo o meu ser!
Em ti palpita o meu peito;
E a razão que me delira,
Em ti vive, em ti respira,
Com teu imperio a rendeste;
Sou teu: venceste, oh! venceste!
Quanto tempo decorreu
Desde aquell'hora maldita?
Quanto tempo est'alma afflicta
Na angustia se debateu,
Sem que um sorriso, um olhar
A viesse consolar!
Em vão buscava no ceo
As scintillantes estrellas;
Não via em nenhuma d'ellas
Nem formosura, nem lume,
E no prado por mais bellas
Que se ostentassem as flores,
Para mim não tinham cores,
Nem encantos, nem perfume!
..........................
Uma tarde, era o sol posto,
Vi-te assomar á janella;
Depois inclinar o rosto
Sobre a mão graciosa e bella,
E contemplar fascinada,
A natureza encantada.
A aragem com brando alento
Agitava os teus cabellos,
E julguei nesse momento
Ver-te á flor dos olhos bellos
Estremecer cristalina
Uma lagrima divina!
Sobre o cimo flexuoso
Do monte se reflectia
Ainda o clarão saudoso
Do brando expirar do dia,
Quando afogueada rompeu
A lua no azul do ceo.
Teu seio battia inquieto,
E eu senti no coração
A chamma do antigo affecto
Rebentar como um volcão!
De repente os olhos teus
Se volveram para os meus.
Quizemos fallar, a voz
Nenhum a poude soltar;
Mas que não dissemos nós
Naquelle inspirado olhar!...
Uma só vez na existencia
O diz a muda eloquencia!
........................
........................
Entrei no baile! a alegria
Saltava no teu semblante,
Quando a valsa delirante
Rompeu no vasto salão!
Era aquella melodia,
Que tanta vez a teu lado
Me fez batter agitado
De enthusiasmo o coração!
Ergueste a fronte animada,
E em teu rosto se trocou
A pallidez namorada
Pelo fogo da paixão!
Como o teu olhar fallou
Antes que dissesse a voz:
«Oh! tua outra vez eu sou!»
Depois no giro veloz
Da dança vertiginosa,
Como a tua voz formosa
Sobresaltada tremia!
Como em tua alma eu vivia!...
É que nesse instante Deus
Quiz unir as nossas vidas
Por um amplexo dos ceos!
No horisonte esmorecidas
As estrellas desmaiavam
Co'os resplendores da aurora
Que já no ceo despontavam.
Naquella encantada hora
Expirou nos labios teus
Um suspiro, e um adeus!
Um adeus, que promettia...
Mas quem pode revelar
O que nelle se dizia!
A aurora vinha a ráiar
E os clarões da manhã fria
Acaso viram jámais
Tão felizes dois mortaes?
.........................
.........................
Desde então ao teu poder,
Submisso, humilde, sugeito
Existe todo o meu ser.
Em ti palpita o meu peito,
E a razão que me delira,
Em ti vive, em ti respira,
Com teu imperio a rendeste,
Sou teu: venceste, oh! venceste!

Setembro da 1861.