Azo emfim sólta a voz:
«Ha pouco ainda,
Numa esposa e num filho resumia
Toda a minha ventura neste mundo.
A aurora dissipou tão bello sonho!
Antes do pôr do sol, nem um nem outro
Me devem pertencer. Quebrem-se embora,
As ligações mais caras da minh'alma!
Hugo! um padre te espera, e depois d'elle
A justa punição do teu peccado.
Ergue preces ao ceo antes que o lume
Das estrellas se accenda no horisonte:
Talvez te dê perdão. Mas neste mundo
Não existe logar onde possâmos
Nós ambos respirar. Adeus, não quero
Assistir ao teu ultimo momento!
Porém tu, fragil ser, ensanguentada
Terás de vêr cair essa cabeça.
Vai, traidora mulher; sobre a tua alma
Pese o remorso da desgraça d'elle!
Vai-te, adeus, e se podes, contemplando
Este exemplo fatal, ter vida ainda,
Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»

XIII

Velando a face pallida e sombria,
Onde as veias inchando palpitavam,
Como se o sangue em ondas refluisse
Do coração á fronte, Azo ficára
Callado longo tempo. Hugo, soltando
Profunda, porém firme, a voz do peito,
Roga ao pae que o escute alguns momentos.
O principe em silencio lh'o concede:
«Tu bem sabes que a morte não receio;
Tinto em sangue mil vezes nas batalhas
Me viste ao lado teu, onde mais forte,
Mais travado e mortal, era o combate.
Então deves lembrar-te que esta espada,
Que ha pouco os teus escravos me arrancaram,
Derramára mais sangue do que em breve
Fará correr a mão do teu carrasco.
Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa?
Quite me deixas d'esse dote infame!
Presente, viva tenho na memoria
A injuria com que as faces affrontaste
De minha pobre mãe; e a vil herança
Que recebi no berço, inda me accende
O semblante de cholera e vergonha.
«No tumulo onde agora ella repousa,
Irá juntar-se em breve o meu cadaver.
Transido o peito seu por mil desgostos,
Separada do corpo esta cabeça,
Entre os mortos dirão até que ponto
Foste amante fiel, pae carinhoso.
«Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes
Que trocámos affronta por affronta.
A mulher a que chamas tua esposa,
Victima ingenua do teu fero orgulho,
Não te lembras que fôra largo tempo
Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a,
Contemplando o seu rosto, desejaste-a,
E para emfim provar que não podia
Pertencer-me jámais ousaste affoito,
Allegar o teu crime e a minha origem.
«Era indigno de ser esposo d'ella!
E porque?! Por que as leis não consentiam
Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste.
E comtudo, se a mão da Providencia
Me conservasse a vida, dentro em pouco
Podéra conquistar de certo um nome
Tão nobre como o teu. Tive uma espada,
E sobeja ambição para elevar-me
Com ella aos feitos de sonhada gloria.
Bem sabes que as esporas mais brilhantes,
Nem sempre as traz aquelle que nascêra
Embalado na purpura, e que as minhas,
O corcel que montava, por mil vezes
Avante arremessaram dos mais nobres,
Mais valentes senhores, quando, lembras-te?
Carregando eu bradava: Éste e victoria!
O meu crime conheço, e não procuro
Minoral-o, descança, nem tão pouco
Implorar-te alguns dias de existencia,
Rapidas horas que sem ser contadas
Passarão sobre a pedra do meu tumulo!
«Delirio, como foi o do passado,
Não podia ser longo. A minha origem,
O meu nome, não são de mancha isentos;
Mas comtudo, apesar do teu orgulho,
Regeitar perfilhar-me!... nesta face,
Quaes olhos não verão que sou teu filho?
A minh'alma tambem de ti procede!
De ti, sim; por que tremes? de ti veiu
O indomavel vigor do meu caracter.
Não foi somente a vida que me deste,
Porém quanto podia emfim tornar-me
Em tudo igual a ti. Comtempla a obra
Do teu culpado amor! Na semelhança,
Semelhança fatal que vês no filho,
Irada te castiga a Providencia!
Est'alma não é pois a d'um bastardo,
Como a tua não soffre a tyrannia.
O passageiro sopro da existencia,
Nunca em mais o presei do que tu proprio,
Quando juntos na força do combate,
A galope os corceis, a espada em punho,
Por mil vezes nas renques do inimigo
Rompendo a ferro frio penetramos.
«O passado acabou, e dentro em pouco
O futuro com elle irá juntar-se,
«Mas oxalá que a mão do Omnipotente
He houvesse dado a morte em taes instantes!
«Era pouco deixar-me orfão no mundo
Do affecto maternal; ousaste ainda
Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?
Sou teu filho, conheço-o neste instante,
E a sentença cruel que proferiste,
Posto venha de ti, não posso agora,
No fundo de minh'alma achal-a injusta.
«No peccado nasci, morro na infamia;
Por onde começou, termine a vida.
Errando o filho, o pae tambem errára;
Num, castigas os dois. Perante os homens
Eu, quem sabe? serei o mais culpado,
Porém Deus julgará entre nós ambos.»

XIV

Cruzando as mãos no peito Hugo fizera
Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,
Que a sala do palacio povoavam,
Não houve um só, que ouvindo esse ruido
Deixasse de tremer. Depois cravaram
Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.
Parisina, infeliz! pallida e fria,
Immovel como estatua de alabastro,
Dissemos que assistíra á scena horrivel,
Da perdição do amante. Os olhos fixos,
Scintillantes, abertos, desvairados,
Nem sequer por instantes se volveram.
Nem uma vez as palpebras, cerrando-se,
O fito olhar velaram; mas em torno
Das pupillas azues, e resplendentes,
Sem cessar se alargava o alvo circo!
Uma lagrima a custo conglobada,
Lentamente das palpebras saía,
Tremendo sobre a franja das pestanas:
Quem o sabe contar? nesse momento,
Os que a viam, pasmavam, não podendo
Crer que a olhos de humana creatura,
Fosse dado verter tão grossas lagrimas!
Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:
Comtudo no som cavo que soltára,
Nesse longo suspiro, parecia
Que vinha o coração; apoz instantes
Tentára inda outra vez, porém debalde!
Do mais fundo do peito a voz partira
Num grito, num gemido prolongado,
E depois como a pedra, como a estatua
Derrubada da base, como tudo
O que é de vida falto emfim caíra
Digno emblema do tumulo da esposa,
Do traído senhor da casa d'Éste!
Porém não da mulher que sente n'alma
O remorso do crime, e nelle segue
Pelo ardor dos desejos instigada.
Do lethargo fatal tornára em breve,
Mas não para a razão; cada sentido
Por dor intensa fôra aniquilado.
Como das cordas do arco humedecidas
Lassas da chuva, as settas disparadas
Vão bater ao acaso, assim do cerebro
As magoadas fibras só soltavam
Desvairados, e vagos pensamentos.
O passado, e porvir! Ermo o passado!
Nas trevas do porvir apenas via
Um sinistro clarão, de espaço a espaço,
Semelhante ao do raio quando fende
As nuvens conglobadas no horisonte,
E cai sobre um logar deserto e triste.
Gelada de terror sentia n'alma
O peso do remorso; que existiam
A vergonha, o peccado, na consciencia,
Uma voz mal distincta lh'o lembrava;
Que a morte estava ali pairando livida
Sobre alguem, nesse instante o presentia.
Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida
O sopro que seus labios respiravam?
Era o ceo, era a terra, eram os homens,
Que tinha ante seus olhos deslumbrados?
Os homens, ou demonios que a miravam
Com sinistra expressão? Eram os mesmos
Cujo olhar noutro tempo revelava
Tão suave, e profunda sympathia?
Tudo era incerto e vago no seu animo,
Receios, e esperanças insensatas;
Agora um meigo riso, logo um pranto,
E no seu desvairado pensamento,
Cuidava ser aquelle um sonho horrivel
No qual o coração se debatia.
Porém d'elle, oh! debalde procurára
Acordar a infeliz jámais na vida!

XV

Na torre pardacenta do mosteiro,
Balançam lentamente agora os sinos,
E o som profundo e triste dentro d´alma,
Desperta dolorosos sentimentos.
Por aquelles que á sombra do cypreste,
Repousam para sempre, ou dentro em pouco
Terão de repousar, o canto funebre,
Que ouvis neste momento se desprende.
Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;
Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!
Braços nus o carrasco attento espera
Pelo instante fatal; certeiro e forte,
Deve o golpe caír. Horrivel quadro!
Mas comtudo ao redor avidamente,
A turba silenciosa se reune,
Para ver, Santo Deus! no cadafalso
Por ordem de seu pae morrer um filho!

XVI

É um'hora encantada a que precede
O derradeiro adeus do sol explendido!
Na pompa de seus raios fulgurantes,
Parece escarnecer da scena horrivel
Que se aproxima de seu termo agora.
Curvado aos pés do monge, em voz sumida
Hugo profere a derradeira prece,
Prece contricta, humilde, fervorosa.
Nessa fronte inclinada e pensativa
Bate um raio de luz, porém mais vivo,
Mais brilhante reflecte sobre a lamina,
Que proxima da victima responde
Por um forte, mas lugubre, reflexo.
Como est'hora suprema é dolorosa!
O crime fôra atroz, justo o castigo;
Mas comtudo o supplicio nesse instante
Faz gelar de terror quem o contempla!

XVII