Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a!
Quem podera immolar um ser tão bello?!
Oh! ninguem! Apesar do negro crime,
Da nefanda traição, faltam-lhe as forças,
Ao contemplal-a assim adormecida.
Nem a acorda sequer, mas por instantes
No seu rosto encantado crava os olhos.
Se de subito agora despertasse,
A infeliz nesse olhar sentíra a morte!
Pela fronte do principe traído,
Frio corre o suor, e á luz da lampada
Estremecem brilhando as grossas bagas.
E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias
Nesse instante fatal foram contados!
VIII
Assim que o sol desponta no horisonte,
Azo corre a indagar pelos que o cercam,
E as derradeiras provas apparecem.
As aias da princeza, largo tempo
Conniventes no crime, revelaram
Quanto havia de occulto nesse drama.
Não tem que duvidar! Azo, escutando
A longa historia de tão negro crime,
Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces,
Que de profunda cholera se inflammam.
IX
Na vasta sala do feudal palacio
O orgulhoso Senhor da casa d'Éste,
Sobre o purpureo throno está sentado.
Nobres, pagens, soldados o circundam,
Os olhos crava nos culpados ambos,
Ambos jovens e bellos. Duros ferros
Tem sujeitos os pulsos do mancebo,
Que fôra brutalmente desarmado
Por mercenarias mãos da nobre espada.
Na presença de um pae é d'este modo
Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?!
Porém, Hugo infeliz, nesse momento,
Tem de ouvir a sentença incontrastavel
Dos labios paternaes, prestar ouvidos
Á triste narração do seu opprobrio!
E comtudo a expressão do nobre rosto,
A distincta altivez conserva ainda!
X
Pallida, sem alento e silenciosa,
Aguarda Parisina nesse instante
As palavras fataes. O seu destino
Quão rapido mudou! Ha pouco ainda,
D'aquelles olhos a celeste chamma
Pelos salões doirados espargia
A meiga seducção. Se nesses olhos
Visse alguem borbulhar uma só lagrima,
Mil cavalleiros da mais nobre estirpe,
Arrancando da espada, a vingariam!
Mas agora, infeliz! quantos a cercam,
Mal disfarçam no rosto carregado
A contida expressão do seu desprezo!
E elle, o amante adorado da sua alma,
Elle, oh Deus! que liberto por instantes,
Por instantes que fosse, a houvera salvo,
Jaz preso ao lado seu em duros ferros!
Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras
Onde outr'ora fugia a cor suave
Da terna violeta, convidando
A mil sequiosos, demorados beijos,
Se entumecem, velando a vista immovel
Das pupillas, nas quaes a dor intensa
Accumula uma lagrima apoz outra!
XI
Oh! por ella tambem, nesse momento,
Derramára o infeliz amargo pranto,
Se de tantos a vista a não cercasse.
A dor que o devorava, parecia
No mais intimo d'alma adormecida;
A fronte macilenta e transtornada,
Conservava-se altiva. Por mais forte,
Mais acerbo que fosse o seu tormento,
Não quizera humilhar-se na presença
D'aquella multidão que o comtemplava.
A companheira bella de infortunio,
Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se
Das horas do passado, do seu crime,
Da vingança de um pae, do seu destino,
E sobre tudo do destino d'ella,
Não ousava lançar sobre esse rosto
A desvairada vista, receando
Que, cedendo ao remorso, revelasse
Quanto o seu coração fôra culpado.