Mas não é para ouvir os doces carmes
Do amoroso cantor, que Parisina
Do palacio feudal ao parque desce;
Nem para contemplar a luz brilhante
Das tremulas estrellas, que divaga
Por entre as sombras que diffunde a noite.
Se procura um desvio na espessura,
Não é para aspirar o vivo aroma
Das matisadas flores; e se escuta,
Não é de certo para ouvir das aguas
O brando murmurar. Sons mais queridos
Espera o seu ouvido nesse instante.
Rangendo as folhas seccas denunciam
Que se aproxima alguem: empallidece
De susto e de prazer ao mesmo tempo.
D'entre as ramas que a brisa doidejante
De espaço a espaço agita, mansamente
Parte emfim uma voz: é voz amiga;
De subito o rubor lhe volta ás faces,
E mais livre, porém não menos forte,
Bate-lhe o coração no peito agora.
Mais um momento só é já passado,
Aos pés da bella jaz o cego amante.

III

O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca,
Que lhes importa nesse doce instante?
Tudo é nada a seus olhos deslumbrados
Pelo fogo do amor; tudo se perde,
Se confunde, e se esvai nesse delirio!
Nos suspiros que vem do fundo d'alma,
Nesses mesmos, respira tal ventura,
Que, se fosse mais longa, dentro em pouco
A vida ou a razão succumbiria!
Oh! quem sente lavrar dentro do peito
O fogo da paixão com tanto imperio,
Não pensa na desgraça, nem se lembra
Da curta duração de taes enganos!
Ai! quantas vezes despertâmos antes
De saber que não volta o mago sonho!!

IV

Vão partir: vão deixar com passos lentos
O encantado logar que presenceára
O seu transporte em delirante crime.
Vão partir: e apesar dos mil protestos,
Da esperança que em breve hão de juntar-se,
Dor profunda no peito lhes comprime
Agora o coração, como se fosse
Aquella a derradeira despedida.
Parisina, cravando os olhos languidos
No firmamento azul, treme, sentindo
Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe.
Elle outra vez a cinge contra o peito;
Um suspiro, um adeus, inda outro beijo,
É forçoso partir, levando n'alma
Os amargos, crueis presentimentos,
Que de perto acompanham sempre o crime.

V

Tranquillo no seu leito solitario,
Hugo repousa, e pode sem receio
Livremente soltar o pensamento.
Porém ella descança a fronte pallida
Das fadigas do amor, junto do esposo.
Sonhando, em voz sumida solta um nome,
E suppondo estreitar contra seu peito,
Agitado e febril, o terno amante,
Entre os braços comprime esse que dorme
Agora ao lado seu. Subito acorda
Á suave impressão do meigo abraço
O esposo que se julga idolatrado,
Até nos sonhos da adorada esposa!

VI

Sobre o seu coração com quanto affecto
Reclina aquella fronte encantadora!
Com quanto afan procura ouvir as frases,
Que de seus labios solta entrecortadas!
Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento,
Azo, o altivo senhor, estremecêra
Como tendo escutado a voz do archanjo!
Oh! deve estremecer, porque a sentença,
A sentença fatal que os seus ouvidos
Acabam de escutar, vai despenhal-o
Para sempre no abismo da desgraça!
O nome que ella em sonhos proferíra,
Que soára tremendo como a vaga,
Quando arremeça aos concavos rochedos
A debil prancha que sustenta o naufrago,
Esse nome qual foi? O nome de Hugo;
Hugo, o filho da pobre e linda Branca,
Que o principe illudiu, e sem piedade
Depois abandonou! Hugo, seu filho,
Fructo innocente de um amor culpado!

VII