Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias. Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.
Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor particular que se encontra em todas as composições do grande poeta, dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a insignificancia d'esta offerta ao
Seu do coração
Janeiro de 1857.
Bulhão Pato.
PARISINA
Imitação
I
É na hora, em que a voz bella e sentida
Do meigo rouxinol, entre a folhagem
Das balsas escondido, solta ao vento
A saudosa canção do fim do dia:
Hora solemne e grata em que os amantes
Renovam mil protestos de ternura,
De constancia e d'amor; em que o susurro
Da fresca viração vai confundir-se
Co'o murmurar da trepida corrente.
De cristalino orvalho borrifadas,
As vicejantes flores da campina
Mais vivo aroma espargem no ambiente.
Accendem-se no ceo milhões de estrellas,
É mais escuro o azul á flor das vagas,
E a verdura do bosque é mais sombria.
Entre as trevas e a luz, o firmamento
Jaz velado por languido crepusculo,
Que rapido se esvai nos frouxos raios
Da lua, despontando no horisonte.