Volve folha desbotada,
Outra vez á mão nevada
Que do tronco te ceifou,
Volve, e dize sem receio,
Que te apertei contra o ceio,
Que o meu olhar te adorou:
Vai discreta confidente,
Dize tudo quanto sente,
E calla o meu coração!
Vai, que a tua voz sentida,
Ha de ser por ella ouvida
Com ternura e compaixão.
Dize que ao ver um instante
Anuviado o seu semblante,
Pensativo o seu olhar,
De sobresalto e receio,
Sinto o coração no seio
De repente a palpitar!
Que a sonhei antes de vel-a,
Como bem fadada estrella,
Mensageira do Senhor!
Que ao vel-a a voz da consciencia
Disse: É esta na existencia
A tua estrella de amor!
De amor puro, intenso, ardente,
Mas que occulto eternamente
No meu peito ficará!
Que no infortunio nascido,
Só commigo tem vivido,
E commigo morrerá!
Ai! folhinha desbotada!
Outra vez á mão nevada
Volve de quem te ceifou!
Volve, e dize, sem receio,
Que te apertei contra o seio,
Que o meu olhar te adorou!
Maio de 1854.
[XXIX
]
NUM ALBUM
Venham ver este retrato,
E respondam se o pintor,
Que desenhasse melhor,
O tirava mais exacto.
Eil-a! saltando da tela,
Viva, inteira, palpitante!
Pallido um pouco o semblante,
A boca graciosa e bella,
Quando o sorriso a desflora,
É como a rosa da aurora
Abrindo ao sopro de abril!
É mais! é ver num momento,
Quanto pode o pensamento
Sonhar de casto e gentil!
O cabello ondado e fino,
Negro como a noite escura,
Cai no collo alabastrino,
E faz resair a alvura
Do rosto fascinador.
Os olhos... oh! neste instante,
Tremo, hesito, não ha cor,
Não ha luz por mais brilhante,
Que possa emfim imitar
O reflexo scintillante
Da chamma do seu olhar!
Chamma que ás vezes traidora,
Se occulta na sombra escura,
Á espera que chegue um'hora,
Hora de morte ou ventura!,
Em que possa deslumbrar,
Com mais fogo e com mais vida,
O desvairado que ousar,
Miral-a sem recear,
Pela ver assim sumida!
Terminou?... e eu que julgava
Cobrir-me de eterna gloria,
Quando tanto me esmerava
Na minha copia ideal!
Agora que na memoria,
(Ou antes no coração)
Tenho vivo o original,
Vejo bem que não ha mão,
Por mais que saiba pintar,
Capaz de estampar na tela
A expressão graciosa e bella
D'essa face, e d'esse olhar!
Abril de 1859.
[XXX
]
ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?
Onde se encontra a ventura,
Esta encantada visão,
Que tantas vezes procura,
Mas debalde, o coração?
Nas pompas da formosura?
Nos esplendores da gloria?
No poder de conquistar
A mais difficil victoria
Com o mais timido olhar?
Oh! como então és feliz,
Porque tudo te revela,
Que não ha face mais bella,
Nem existencia tecida
De mais florído matiz!
Porém responde, na vida,
Quando tu passas radiante
D'essa luz que emfim só Deus,
Concede a um anjo dos seus!...
Quando ouves a cada instante
Dizer com voz anhelante:
«Lá chega, lá passa, é ella,
Que é tão feliz como é bella!»
Uma sombra de amargura,
Um sentimento profundo
Não te opprime o coração
E não te diz que a ventura
Se não encontra no mundo?!
Uma vez, sereno o ceo,
Como os teus olhos brilhava!
Airosa ante mim passava
Essa forma, esse ideal
Que não pode ser mortal!
Atravez do raro veo,
Que o semblante te encobria,
Uma lagrima descia;
Era de prazer ou dor!
Oh! de angustia parecia,
Pelo agitado tremor
Com que o peito te battia!
O mundo não sei se a via,
Porque a meu lado exclamava:
«Lá chega, lá passa, é ella,
Que é tão feliz como é bella!»
Mas quem sabe se acertava?!
Porque a ventura real
Se existe, é só no momento
Em que livre o pensamento
Se eleva ao mundo ideal!
E noss'alma a outra unida,
Foje á terra, se illumina
De um raio de luz divina,
E se esquece emfim da vida!
Julho de 1859.