[XXXI
]
QUEM DIRÁ?
Quem dirá, vendo a expressão
Que brilha no teu olhar,
Que tu não tens coração?
Bem haja a mão tutelar,
Que á beira me suspendeu
Do abismo da perdição!
Que delirio foi o meu
Naquelles tão curtos dias
Que passei ao lado teu?
Oh! como tu respondias
Com o silencio eloquente
Ás palavras que partiam
Do meu coração ardente!
E depois, se num momento
Os labios já não podiam
Expressar o sentimento,
O fogo do meu affecto,
Como o teu olhar inquieto
A minh'alma interrogava
E todo paixão jurava,
Que era meu o teu amor!
Oh! que dias de ventura!...
Nos campos, abria a flor;
Por entre a tenra verdura,
Inda fraca, inda infantil,
Se escutava a voz das aves
Que saudavam abril.
E tu, como ellas, ditosa,
Ás suas notas suaves
Juntavas a voz formosa!
Ah! como eu vivia então!
Como de novo sentia
Rebentar no coração
Essa infinita alegria
Que nos desvaira a razão!
Por quanto tempo durou
O sonho que me encantava?
Breve foi, maldicta a mão
Que d'elle me despertou.
Quando mais certo julgava
Que era emfim minha a ventura,
No momento em que acabava,
De escutar dos labios teus
Aquelle estremoso adeus!
Adeus, que nesse momento
Com a esperança sorria
E tanto me promettia!...
Foi, oh Deus! que de repente,
Uma palavra maldicta,
Fez que eu visse claramente,
Cobrindo minh'alma afflicta
De espessa nuvem sombria!
........................
Quem dirá vendo a expressão
Que brilha no teu olhar,
Que tu não tens coração
Ou tem-lo para enganar?!
Abril de 1859.
[XXXII
]
UM BRINDE
(Improviso)
Amigos, á formosura
Que nos cerca neste instante,
Erga-se a taça escumante
De purpurino licor.
Vivo enthusiasmo rebente
Agora de nossas almas,
Caiam palmas sobre palmas
Cada vez com mais ardor!
Aqui floresce na horta
A viçosa laranjeira,
Corre o Champanhe e o Madeira
Que offertara nivea mão,
Aqui não chegam as garras
De tanta velha leôa
Que esfaimada por Lisboa
Se atira a tanto leão.
Aqui livre em nosso peitos
Pula impaciente alegria,
Porque ao sol de um bello dia
Tudo vemos reflorir!
Que importa pois que os ministros
Resonem no parlamento,
E que os homens de São Bento
Nem sequer nos façam rir?
Para nós sorri-se o mundo,
Para nós a vida é esta,
Hoje festa, amanhã festa,
Gloria, encantos, illusões!
Junto a nós temos as bellas
Mais fragrantes do que as rosas,
Longe... o mundo das preciosas,
E o mundo dos papellões!
Eia pois! á formosura
Que me cerca neste instante
Erga-se a taça escumante
De purpurino licor.
Vivo enthusiasmo rebente
Agora de nossas almas,
Caiam palmas sobre palmas
Cada vez com mais ardor!
Abril de 1859.