NUM ALBUM
Não vês tu como inconstante
Num instante,
Ruge o sul, e turba o ceo,
E que o mar, quedo, azulado,
Brame irado,
Sacudindo alto escarceo?
Não tens visto na manhã,
Flor louçã,
Junto ás aguas rebentar,
E á tarde, murcha, pendida,
Já sem vida,
Sem perfume, a desfolhar?
Pois então queres, amiga,
Que eu te diga
Que o amor não é assim?
Quando tudo empallidece,
Se emmurchece,
Se desbota, e morre emfim?!
Essas illusões doiradas,
Encantadas,
Do primeiro albor da vida,
São como a rosa louçã,
Da manhã,
Á tarde n'haste pendida;
São como o ceo azulado,
Que doirado
Pelo sol de ameno dia,
Se escurece de repente
Tristemente
Por uma nuvem sombria!
E tu não queres, amiga,
Que eu te diga
Que o amor não é assim?
Quando tudo empallidece,
Se emmurchece,
Se desbota, e morre emfim?!
Agosto de 1848.
[XLI
]
SE CORAS NÃO CONTO.
Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo innocente:
Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?
Não córes, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvídas, verás como é lindo
O sonho innocente do meu coração:
Eu via em teus labios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.
E tu não fallavas, mas eu entendia;
E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minh'alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.
Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
O resto eu te conto; como has de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvil-o não has de córar.
Depois apertando teu corpo flexivel,
Cingindo teu collo no braço a tremer,
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.
Não posso contar-te, só pude sentil-a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores,
Do qual, duvidosa, julgavas córar.
Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.
Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?
Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho innocente do meu coração.
Janeiro de 1847.
[XLII
]
ANJO E VIRGEM.
Virgem, que era o que sentias
Quando ao vento desferias
Essas frouxas harmonias
De um incerto murmurar?
Virgem, que era o que sentias
Teu santo seio agitar?
Achavas o mundo um ermo,
Onde ao coração enfermo
Dos horisontes sem termo
Não vinha uma aura de amor?
Achavas o mundo um ermo,
Fertil só de fel e dor?
Ou teu suspirar sentido
Era por ver desmentido
De amor o sonho querido,
Que sonhaste, alma gentil?
Ou teu suspirar sentido
Foi dor ligeira, infantil?
Era o teu anjo innocente
Que passára mansamente
A sorrir divinamente,
Mas que outra vez não volveu?
Era o teu anjo innocente,
Que víras subir ao ceo?
E ficaste pensativa
Sobre esta terra captiva
D'esperança, e d'amor esquiva,
Coberta com veo de dó;
E ficaste pensativa
Ao ver-te perdida e só.
Oh! esse tenue gemido
Do seio teu despedido,
Qual anhelito sumido
Que a morte veiu cortar,
Oh! esse tenue gemido,
Que não pudeste occultar...
Foi longo adeus de saudade
Aos dias da tenra edade,
Que envoltos na eternidade
Ligeiros viste fugir;
Foi longo adeus de saudade
Ao teu primeiro sorrir!
Do ceo á terra baixaste,
E quando nella te achaste,
Tristemente suspiraste
Ao ver-te perdida e só;
Do ceo á terra baixaste,
Á terra de pranto e dó.
Virgem, virgem, mal pensavas,
Quando triste suspiravas,
E num gemido enviavas
Longo e doloroso adeus;
Virgem, virgem, mal pensavas
Que eras um anjo de Deus.