Março de 1849.
[XLIII
]
A M.ME LOTTI
Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo de infancia desvallida.
Canta oh! canta alma inspirada,
Que jámais na tua vida
Tiveste a fronte cingida
Dos loiros que hoje vais ter.
Canta: os prantos da orfandade,
Á tua voz seductora,
Se vão convertendo agora
Em sorrisos de prazer!
Oh! jámais em teus triumphos
Quando erguendo o rosto altivo,
A teus pés tinhas captivo
O poder da multidão,
Jámais sentiste no peito
Entre o rumor delirante,
Batter, como neste instante,
De enthusiasmo o coração!
Cada nota que desprendas
Terá um eco no empyreo,
Por que as palmas do martyrio
Em rosas vais transformar.
Oh! bem haja a Providencia
Que na tua voz divina
Poz a graça que fascina,
E o condão de consolar!
Quando no giro brilhante
Da tua crescente gloria,
Te venha um dia á memoria
Esta noite triumphal,
Pára, escuta, e docemente
Sentirás no teu ouvido,
Um murmurio agradecido
De ternura filial.
São elles os desherdados,
Os que já sem lar paterno
Erguem preces ao Eterno,
E bençãos por teu amor;
São elles a quem um dia
Com teu inspirado canto
Tornaste em sorriso o pranto,
Em pura alegria a dor!
1860.
[XLIV
]
PRIMAVERA
Contempla este ceo esplendido,
Ouve aquellas melodias
De tanta ingenua avesinha,
Que alegre, os serenos dias
Da primavera adivinha.
Não vês a olaia? vaidosa!
Só por vêr que a amendoeira,
Mais cedo desabrochou,
Vermelha como uma rosa,
De repente se tornou.
Oh! bem vinda primavera!
Ao vêr o sorriso terno
Da tua boca divina,
O prado, o monte, a campina,
Que o triste e gelado inverno
Sem piedade devastou,
Num momento se animou!
Em teu regaço a abundancia,
Esperançosa floresce;
Á sombra de teus verdores,
Entre a suave fragrancia
De tuas variadas flores,
Contente o pobre adormece.
E tu, minha vida, ao vêr-te
Sósinha a meu lado agora,
Nesta estação, nesta hora,
Neste encantado logar,
Á sombra d'essa verdura
Onde frouxa a luz desmaia,
Ante o mar que além suspira
Na loira areia da praia,
Não vês que a razão delira,
Que dentro do coração
Não cabe tanta ventura?!
Falta a vida, sim, a vida,
Para esta alegria immensa,
Das nossas almas, querida!
Viva, ardente, pura, intensa,
Nesses olhos brilha a chamma
Do amor que tua alma incerra;
Alma que ao sopro de Deus
Em divino amor se inflamma,
Alma que veiu dos ceos,
E que não cabe na terra.
Fugaz, tranzitorio, vão,
Será para nós o encanto
Que nos enche neste instante
De ventura o coração?
Será! que importa? constante
Virá depois a saudade,
Abraçar essas memorias
De infinda felicidade;
Como ao templo aonde as glorias,
De paz, de amor, de alegria,
Se celebraram um dia,
Mas templo que ao chão tombou,
Se abraça a hera viçosa,
Reveste as pobres ruinas,
Amparando carinhosa
Esse resto que ficou!
Uma lagrima extremece,
Vem de teus olhos á flor!
Minha vida, esquece, esquece,
Que póde haver na existencia
Momentos de acerba dor!
O sopro da Providencia,
Vivo está, vivo respira,
Neste ceo desassombrado,
Na corrente que suspira,
Neste cantico inspirado,
Que as aves soltam no val,
E d'elle provém a essencia
Do nosso amor immortal!
Contempla o vasto horisonte
Que o sol vivido illumina;
Olha as flores da campina;
Escuta as aguas da fonte;
Respira esta aragem pura,
Embalsamada, e suave;
Ouve o cantico d'essa ave,
Que improvisa na espessura!
Recolhe n'alma o perfume,
D'esta encantada poesia.
D'este sol, d'esta alegria,
Que em torno de nós fulgura,
E responde, minha vida,
Se a nossa alma neste instante
Póde com tanta ventura!
Abril de 1856.