—«Bem sei que era exilio a terra
Para ti, anjo do ceo!
Porém, filha, abandonar-me
Quando toda a minha vida
Era a luz d'um olhar teu!
Ouvir essa voz infante,
Ver a impaciente alegria
De teu candido semblante!
«Deixar-me assim na existencia
Triste, só, desamparado,
Aquella flor de innocencia!
Que lhe fiz? tinha-a cercado
De quanto amor neste mundo
Pela mão da Providencia
A peito de homem foi dado!
Oh! que affecto tão profundo!
E tu pudeste partir?
Pois não tiveste piedade
D'esta solemne amargura,
D'esta infinita saudade?
Vi-te inda olhar-me, e sorrir,
Erguer os olhos aos ceos,
No instante de proferir,
O fatal e extremo adeus!...
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«Oh! volve outra vez a mim,
Desce á terra, anjo do ceo,
Vem dar-me a ventura emfim!
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Olha: o vivo sol de Abril
Já nestes campos rompeu;
As rosas desabroxaram;
O rouxinol desprendeu
A voz em saudosos cantos;
Os sitios onde passaram
Os teus descuidados annos,
Não os vês cheios de encantos?
São estes! a mesma fonte,
Ferve alem; naquelle outeiro
O mesmo casal alveja;
As ramas do verde olmeiro,
Dão sombra á modesta igreja
Onde tu vinhas resar,
Quando o som da Ave-Maria,
N'hora meiga do sol posto,
De vaga melancolia
Toldava teu bello rosto!
Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...
Este nome!... anjo do ceo,
Este nome, filha, é teu!!
Oh! meu Deus, por compaixão,
Na mesma pedra singela,
Juntae o meu nome ao d'ella!»—
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E Deus ouviu a oração...
O mesmo tumulo encerra
Filha e pae. Na mesma lousa
Onde repousam na terra,
Uma lagrima saudosa
Vem hoje depôr tambem
A esposa, a viuva, a mãe!
1854.
[1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde, mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se o cadaver do pae!
[L
]
CANÇÃO DOS PIRATAS
(Traduzido do Corsario de Byron)
Sobre as ondas do mar azul ferrete,
Sem limites são nossos pensamentos,
E como as ondas nossas almas livres,
Por quanto alcança a doidejante briza
Cobrindo a vaga de fervente escuma
Nós temos uma patria! Eis os dominios
Onde fluctua o pavilhão que é nosso,
Sceptro a que devem humilhar-se todos!
Turbulenta e selvagem quando passa!
Da lucta ao ocio em taes alternativas
A vida para nós tem mil encantos!
Mas estes, oh! quem póde descrevel-os?
Não serás tu, escravo dos deleites,
Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente
Das alterosas vagas desmaiáras!
Não serás tu, vaidoso aristocráta,
Educado no vicio e na opulencia,
Tu que nem pódes repousar no somno,
Nem achar attractivos nos prazeres.
Oh! quem póde no mundo compr'endel-os?
A não ser o incançavel peregrino,
D'estes plainos que ficam sem vestigios;
Do qual o coração affeito aos p'rigos
Pula orgulhoso em delirante jubilo
Quando se vê sobre o revolto abismo!
Só elle présa a lucta pela lucta
E espera ancioso a hora do combate.
Quando o fraco esmorece apenas sente
No mais profundo do agitado seio
A esperança que vívida desponta
E o fogo da Coragem que se accende!
Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto
Que a nossos pés succumba o inimigo,
E comtudo mais triste que o repouso
Inda parece a morte! mas embora,
Embora, oh! póde vir! ao esperál-a
Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida;
E quando ella se acaba, pouco importa!
Caír pela doença, ou pela espada!
Haja um ente que prese inda algum resto
D'existencia senil! viva aspirando
Sobre o leito da dor um ar pesado,
Erguendo a custo a trémula cabeça!
Para nós são as relvas florescentes!
Emquanto ess'alma expira lentamente,
Foge a toda a pressão d'um salto a nossa!
Possa ainda ufanar-se esse cadaver,
Da cova estreita e do marmoreo tumulo
Que a vaidade dos seus lhe consagrára!
São raras, mas sinceras, nossas lagrimas,
Quando o oceano, abrindo-se, sepulta
No vasto seio os nossos camaradas!
Inda mesmo no meio dos banquetes
Funda tristeza nos rebenta d'alma
Quando a purpurea taça erguendo aos labios
A memoria dos nossos corôamos.
E o seu breve epithaphio é redigido,
Ao por do sol do dia da batalha,
Ao dividir as presas da victoria,
Quando a exclamam os rudes vencedores
Com a fronte anuviada de saudades:
Ai, de nós! como os bravos que morreram
Folgariam ditosos nesta hora!
Julho de 1861.