NUM ALBUM
Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos.
No reverso da folha onde escrevo,
Um cantor jovenil pulsa a lyra,
E magoado, e sentido, suspira,
Com saudosas memorias d'amor!
Na cadencia da lettra singela,
Qual murmurio de branda corrente,
Transparece sua alma innocente,
Toda vida, perfume, e calor!
Variegado, risonho, brilhante,
Inda agora na flor da innocencia
Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia
Atravez do seu prisma gentil:
Cuida extinctas ficções encantadas,
Crê perdido o seu sonho d'amores,
Julga vêr desbotadas as flores
Que adornavam sua harpa infantil!...
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Ai! poeta! ai de ti! que saudade,
Que saudade tão funda e sentida
Has de ter d'esses annos da vida,
Quando os vires ao longe ficar!
Que saudade tão funda do tempo
Em que tinhas sentido saudade,
Has de ter quando a triste orfandade
Dos affectos tua alma enluctar!
Ouve pois joven bardo que a lyra
Pulsas hoje com tanta amargura;
De illusões, de poesia e ventura,
Enche agora teus annos em flor.
Que são estes ephemeros sonhos,
Os que vem derramar grata essencia
Sobre a tarde da nossa existencia
Dar-lhes vida, perfume, e calor!
Agosto de 1854.
[LII]
Á memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha.
Na hora melancolica,
Do despedír do dia,
Quando se escuta o cantico,
Ou extranha melodia,
Que na deveza languido
Desprende o rouxinol;
Quando desponta pallida
No firmamento a lua,
E que inda incerta e trémula,
No mar azul fluctua
Co'a viva cor da purpura
A frouxa luz do sol!...
Quem passe pelo tumulo
Que encerra a virgem bella,
Quebre o silencio tetrico
A orar prece singela
Por essa que a existencia
Deixára inda em botão!
Por ella!? ai, não! a supplica
Ao nosso Deus erguida,
Seja por quem, perdendo-a,
Perdeu parte da vida,
E que no mundo estatico
A filha busca em vão!
Ella este val de lagrimas
Abandonou, subindo
Ao ceo que lhe era patria!...
Ella, feliz, sorrindo,
Brilha no mundo ethereo
Ao lado do Senhor!
Por nós, oh, sombra angelica,
Implora a Deus piedade!
Anjo das azas candidas,
Consola a saudade,
D'aquelles que, adorando-te,
Te viram morta em flor!
Outubro de 1852.