[XI
]
BELLEZA E MORTE
Quando Deus á terra envia
Um anjo dos seus, é breve
A vida que lhe confia.
.........................
Como a flor branca de neve
Que ao primeiro alvor do dia
No prado desabroxou,
Assim ella veiu ao mundo,
E tão rapida passou,
Que d'este rumor profundo
Nem um som, nem um gemido
Por esse anjo foi ouvido!
Nasceu, e sorrindo amou!
Quem ao vel-a tão ditosa
Tão feliz por ser amada,
E tão feliz por amar,
Bella, fragrante, viçosa,
Cheia de vida no olhar,
De luz na face encantada;
Quem diria que esse amor
Seria a chamma fatal,
Que a devia emfim matar!?
Pobre florinha do val,
Da aurora ao primeiro alvor
Nasceu, e sorrindo, amou,
Mas com a tarde... expirou!
Junho de 1857.
[XII
]
ORAÇÃO DA MANHÃ
Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho
Vem reflorindo a aurora;
A voz do rouxinol,
Mais inspirada agora,
Sauda a luz do sol.
A perfumada aragem
Beija no campo a flor;
Tudo sorri á imagem,
Do nosso Creador.
No bosque as avesinhas
Soltam os hymnos seus;
No berço as criancinhas
Resam tambem a Deus.
«Por minha mãe, por ella,
E por meu pae, Senhor!
Dai-lhes propicia estrella,
Gloria, ventura, amor!
«Cercai de mil delicias,
A sua vida emfim,
Como elles de caricias
Me tem cercado a mim.
«As preces da innocencia
No ceo ouvidas são;
E a minha, oh Providencia,
Parte do coração,
«Parte ao florir da aurora,
Co'a voz do rouxinol,
Que se desprende agora
Saudando a luz do sol!»
Junho de 1859.