CARIDADE

Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca

Como avesinhas implumes
Enjeitadas nos seus ninhos,
Deixa a sorte os pobresinhos,
Sem lar, sem pão, sem carinhos
De maternal coração.
Escutando os seus queixumes,
Compassiva a Providencia,
Volve os olhos á innocencia,
E em sua eterna clemencia
Da-lhes lar, ensino, e pão.
Mais vivos torna os desejos
No seio da caridade,
Que á desvalida orfandade
Vai com sincera piedade
Inundar de puro amor;
Amor, que em candidos beijos,
Suavemente procura
Dar conforto na amargura,
Aos que fez a desventura,
Orfãos no berço e na dor.
A quem busca a Providencia
Para amparar o destino,
Do que pobre e pequenino
Se encontra sem luz, sem tino,
Logo no mundo ao nascer!?
Anjos de viva clemencia,
Que onde existe o sofrimento,
Correm, voam num momento,
A dar todo o sentimento,
Que taes almas sabem ter!
São ellas mães, são esposas,
E recordando os carinhos
Que tiveram seus filhinhos,
Não podem ver pobresinhos
Sem amor, sem lar, sem pão!
No berço desfolham rosas,
Onde espinhos só havia,
E o sol de pura alegria,
Já de affectos alumia,
Dos orfãos o coração.
Salve pois, oh Caridade!
Que assim abres o teu seio,
Áquelle que sem esteio,
Á luz d'este mundo veiu
Para viver na afflicção.
Salve casta divindade!
Terna irmã da desventura,
Que os suspiros da amargura
Convertes á creatura
Em risos de gratidão!

Junho de 1856.

[XIV
]

BELLA SEM CORAÇÃO

Era uma esplendida imagem
De olhos rasgados e bellos;
Negros, negros os cabellos;
Boca gentil como a rosa,
Que á luz da manhã formosa
Sorri ao sopro da aragem.
Alta, graciosa, elegante,
Um ar de tal distincção,
Na figura e no semblante,
Que eu disse commigo ao vel-a:
«Como esta mulher é bella,
Sobre tudo na expressão
De pallidez namorada,
Que tem na face encantada!
Esta sim, por Deus o juro,
Esta ha de ter coração!»
A estação, o sitio, a hora...
Era a hora do sol posto,
E um frouxo raio de luz
Vinha bater-lhe no rosto.
A estação o meigo outono,
Quando o prado se descora,
No bosque cessa a harmonia,
Quando tudo emfim seduz
Com vaga melancolia.
O sitio, ameno e saudoso,
Onde livre a alma podia
Dar-se inteira aos sentimentos
De paz, de amor, de poesia!
Aproximei-me da imagem
Meiga, risonha, singela;
Soltára a voz, era bella,
Bella sim, vibrante e pura,
Mas sem aquella ternura,
Sem aquelle sentimento,
Que diz tudo num momento!
Sem tremor, sem sobresalto,
Voz que dos labios saía,
Dos labios só, que se via,
Não provir do coração;
Voz sonora, porem fria;
Bella sim, mas sem paixão.
«Pois essa gentil figura,
Esse pallido semblante,
Essa expressão de ternura
Que todo o teu ar respira,
A luz do olhar scintillante,
Dize emfim: quanto se admira,
Quanto ao ver-te nos encanta,
Será sem alma, e sem vida?!»
Sorrindo me respondeu:
«Aqui não ha coração!»
Mas eu vi que elle bateu
D'essa vez precipitado
Por que a sua nivea mão
Tentou comprimil-o em vão!
E no olhar enamorado,
E na voz que estremecia,
Oh! Deus! o que não dizia
A bella sem coração!

Setembro de 1856.

[XV
]

PERDOASTE!