Anjo offendido; outra vez,
Volve teus olhos do ceo
Áquelle que te offendeu!
Vel-o abatido a teus pés,
Anjo esquece, e compassivo,
Num sorriso de perdão,
Torna a dar-lhe o coração.
A cada instante mais vivo
O remorso cresce em mim;
Perdoa, oh! perdoa, emfim!
Offendi-te num momento
De terrivel desvario;
Era o ciume violento!
O rubor da castidade
A tua face affrontava,
E eu cego, eu perdido, ousava
Proseguir! oh! por piedade,
Por piedade, anjo do ceo,
Perdoa a quem te offendeu!
Em breve a razão voltou,
E com ella essa anciedade
Do desgraçado que ousou
Num momento de loucura
Offender a divindade.
Nas trevas da noite escura,
Nem ao menos uma estrella,
Brilhava serena e bella!
E eu caminhava em delirio
Sem força para acabar
A vida que era um martyrio!
A tão profunda amargura
Quem me podia arrancar,
Quem, senão um teu olhar?
Lá, nas sombras do horisonte,
Despontou por fim a luz,
A mesma que em tua fronte
Bella e placida reluz.
No peito afflicto e cançado
Senti dilatar-se então
Este oppresso coração;
O teu olhar adorado
A mim outra vez volveu,
Terno, meigo, apaixonado.
Perdoaste, anjo do ceo!

Abril de 1857.

[XVI
]

TRES RETRATOS

(Num album)

Como as horas passam rapidas
Nesta doce companhia!
Brilha impaciente alegria
Em tudo á roda de mim.
Nunca fui tão venturoso,
Nunca a mão da Providencia
Fez com que eu visse a existencia
Tão bella e risonha emfim.
Esta noite, quando a lua
No horisonte resvalava,
Inspirado a saudava
Nas balsas o rouxinol.
Vem agora a primavera
Abrindo o virginio manto,
Cada dia um novo encanto
Nos traz o romper do sol.
Como a vida assim é bella,
Nesta amena convivencia,
Com tres anjos de innocencia
De formosura, e de amor!
Dezaseis annos talvez
Não tem Julia, bem contados,
Alta, airosa, olhos rasgados,
E sorriso encantador.
O pesinho estreito e breve
Cinturinha delicada,
A fronte um pouco inclinada,
Com seu ar sentimental.
Na ramagem das pestanas
Occulta a traidora chamma,
Que no instante em que se inflamma
Dardeja um raio mortal.
Mas que morte tão suave!
Inda ha pouco, em certa hora,
Que essa chamma seductora
O coração me accendeu...
Se é morte esquecer a terra,
Naquelle instante morria,
Por que tudo o que sentia,
Era a ventura do ceo!
Vel-a sorrir entre os campos,
Bella, candida, animada,
Como as flores que a alvorada
De sua luz inundou!...
Vel-a, co'as mãos impacientes,
Afastar do rosto bello,
O basto e fino cabello,
Que a aragem desalinhou!
Vel-a depois pensativa,
Quando tibio o sol declina,
Na corrente cristalina
Os olhos negros fitar!
Vagas sombras de tristeza
Que vem toldar-lhe o semblante,
São tão bellas nesse instante,
Dizem tanto sem fallar!
Laura, Elisa, as outras duas,
Laura, pallida e morena,
Baixa um pouco, mão pequena,
Expressivas as feições;
Os olhos claros e vivos,
No seu brilho insinuante,
Reflectem a cada instante
Milhares de sensações.
Eliza, a timida Eliza,
Que innocente singeleza,
Que perfume, que belleza
Naquella face gentil!
Cabellos loiros cendrados,
Olhos d'esse azul escuro,
Que é semelhante ao ceo puro
De um bello dia de abril!
As rosas da formosura
Sempre vivas no semblante,
O corpo esbelto e ondulante,
Se é permittida a expressão;
Uma tal ingenuidade,
No seu todo se revela,
Que em se olhando para ella,
Bate alegre o coração.
Tirados daguerreotypo
Não ficavam mais exactos
De certo estes tres retratos
Que procurei desenhar;
Qual porém é mais sympathico,
Mais perfeito, deve agora
Dizel-o a amavel senhora
Do livro onde os vou deixar.
Eu de certo não me atrevo!
Nos olhos tem Julia a chamma
Que nos sentidos derrama
Torrentes de languidez!
Laura... Eliza... mil encantos;
Emfim, não sei qual prefiro,
Não sei a que mais admiro,
Sei que adoro a todas tres!

Setembro de 1857.

[XVII
]

ADEUS

Vai-te, oh! vai sombra mentida,
Para nunca mais volver!
Vai-te, deixa-me na vida,
Que esse teu estranho ser,
Fatal sempre me tem sido,
Fatal sempre me ha de ser.
Qual era a traidora mão
Que para ti me impellia?
Eu desvairado não via,
Ser aquelle um fulgor vão
Que no horisonte luzia?!
Crente a vista repousava
Na luz clara, intensa, bella,
Que para a terra manava
Do seio da meiga estrella,
E que minh'alma inundava
D'aquella celeste chamma
Que a vida e razão inflamma
No ardente fogo de amor!
Deixei-me cegar por ella;
Quanto e como então vivia
Ao grato e doce calor
D'essa que assim me perdia,
Não sei; porem sei que um dia,
Num'hora de maldição,
Não vi mais no firmamento
O seu mentido clarão.
Desvairado em tal momento
Fugi sem norte e sem tino;
Mas quem foge ao seu destino!?
Numa d'estas noites placidas,
Em que as estrellas fulgentes,
Reflectem vívida luz,
Á flor das aguas dormentes;
Em que o rouxinol seduz,
Co'as inspiradas endeixas
Soltando sentidas queixas,
D'entre as balseiras virentes;
Quando respira no ar,
Do monte que o mato veste
Aquelle perfume agreste,
Que é tão grato de aspirar;
Quando emfim a natureza,
No seu mais pleno vigor
Ergue a Deus seu hymno eterno
De graças, de paz, de amor!
Eu na minha alma abatida,
Procurava, mas em vão,
Uma só nota do canto
Immenso da creação.
Debalde encontrar buscava,
Naquella ardente anciedade
Em que o peito arqueja e cança,
No passado uma saudade,
No porvir uma esperança!
Debalde a vista alongava,
Pelo ceo onde as estrellas,
Resplandeciam tão bellas!
Em meu peito arido e morto
O reflexo d'uma d'ellas
Nem sequer compenetrava!
Fatigado, exangue, absorto,
Sem luz, sem norte, e sem tino
Prosseguia o meu destino!
Quando ao chegar um instante
Em que afflicto a vista erguia,
Dei com teu bello semblante,
Pallido, triste, abatido,
Que para mim se volvia
Saudoso e compadecido.
Oh! tão fundo sentimento
Brilhava nos olhos teus
Que ao ver-te nesse momento
Quem te não dissera um anjo
Do ceo á terra descido,
E que volve arrependido,
Outra vez aos pés de Deus!
Lá, na extrema do horisonte
Vinha então rompendo a lua;
Melancolica a luz sua,
O teu semblante inundou;
E nunca no prado ou monte,
Aquella face formosa,
Outra tão pallida rosa
De um reflexo illuminou!
Comtemplava-te perdido,
De esperança, amor, e gosto,
Quando teu languido rosto,
Pouco a pouco se animou;
E a tua voz docemente
Murmurando ao meu ouvido,
De novo um amor ardente
Outra vez me protestou.
Hesitava em crer-te ainda;
Mas o pobre coração,
Quando se vê na desgraça
Encontra a crença tão linda!
A plenos tragos a taça,
D'esse philtro enganador
Ancioso esgotava então,
Sem me lembrar que no fundo,
Estava o fel da traição.
Vai-te, adeus, pallida sombra,
Vai, porque este coração,
Por tuas mãos lacerado,
Com a tua vista se assombra,
E de ti foge aterrado!