LISBOA
Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor
50—Rua Augusta—52
1896


Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa

Á Commissão dos Monumentos Nacionaes
dedica respeitosamente
este humilde trabalho

O AUCTOR

[nem] espheras. A mesma aconchegada [dimensão] do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de noviça, que poderia do chão acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr de açucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma vegetação arbustiva, que ainda sobrevive á antiga ornamentação floral do pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de uma expressão intradusivel. O claustro de Cellas é, pela extranhesa e pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne, em que a agua não vem de alterosos e magestaticos aqueductos cantar ao sol em taças brunidas de prophyro ou de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de violetas em flôr.
Providenciando sobre o destino de um tão delicado monumento, posto em leilão pela quantia de um conto de réis, dispunha o governo que os capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se recolhessem n'um museu!
Não sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O que sei é que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado da perpendicularidade das suas columnas, não espera senão o primeiro dos mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.
Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e mais villôa cantaria.
Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos por que está passando o antigo mosteiro das Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria com a collaboração de Santa Isabel.
Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos logares para onde as transferiram, e, com o fim de não transtornar inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os pés decepados aos joelhos das figuras.
Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D. Affonso, filho de D. João I, obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em adoração. A caixa tumular, ornada de brazões, cingidos de arabescos e silvados em relevo, descança sobre leões. Em 1881 foram roubadas as cabeças dos leões, os pés e as mãos da estatua, e os dois anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo está completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se tudo de branco—madeiras e cantarias.
A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de Evora.
Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaça os de D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma verba ás reparações d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em Alemquer, o de Damião de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da egreja da Varzea.
Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor da India não tivesse mais importancia historica que a que se liga a qualquer pedreira.
Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma praça, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paços do concelho, edificada em tempo de Affonso V, por João Mendes Cecioso, o pae dos pobres d'Evora. A varanda demolida, da qual pela primeira vez se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas alterações, tão minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua Epanaphora politica, parece ter sido obra de D. João II.
Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece até haver sobre tal assumpto uma resolução assente, o projecto inaudito de eliminar toda a bella alpendrada da praça, da rua Ancha e da rua da Porta Nova.
Outra resolução da camara de Evora, resolução definitiva e aprasada para muito breve, é a de destruir a pequena e tão graciosa egreja do convento do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praça entre as duas ruas de Machede e de Mendo Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo.
A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos do seu tempo.
Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida collecção de praças largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos bairros historicos são hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em muitos logares, onde esses bairros não existem, estão-os inventando, estão-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa á tradição historica, á poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no pelintrismo das suas innovações, bota abaixo os mais venerandos monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; pica os seus historicos brazões para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos reporters.
Mas eu é que não posso deixar de dizer á cidade de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella nos retem não são as suas novas avenidas, nem as suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, são os seus velhos mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas, estreitas e sinuosas, tão curiosos e tão archaicos como o de Valdevinos, o de Alconchel, o das Amas do Cardeal, o do Alfaiate da Condessa; são os quadros incomparaveis do seu paço archiepiscopal; são os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua architectura da Renascença, tão especialmente amoiriscada n'esta parte do Alemtejo; são os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria, a tapeçaria, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; é talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doçaria famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pôdre, de farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão.
Com as improvisações do seu modernismo Evora é como Vianna do Castello, Braga, Guimarães, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que sómente interessam os viajantes pela sua antiga arte, e não valem realmente a pena de que alguem as visite pelo que dão de novo.
Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo é de uma magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores sómente se pode comparar á de Mafra. A mão d'obra é de uma perfeição magistral a ponto de parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente á sua conclusão a cupula do tecto e o lageamento do chão. Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, não tem cobertura, e está servindo de armazem de arrecadação do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.
A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela ornamentação tão portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou de desapparecer, como o convento da Esperança, sem se saber porque, nem para que.
A restauração, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fóra, tão particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a nobreza d'aquelle templo.
Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido objecto a Sé de Lisboa são tão lastimosos quanto innumeraveis.
Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto, como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite, formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso, gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos, houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado de carvão como um chéché de entrudo.
Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles pareça attentar em um tal desdouro, expressão viva do mais abandalhado rebaixamento a que, perante as suas tradições historicas e artisticas, podia chegar a degeneração de uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa são insensiveis á responsabilidade de taes civicias, porque esses dois poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade e a noção de patria, relaxando completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica legitima representação, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.
Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo, mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe puzemos ao pé, para o deshonrar.
Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, é mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria.
Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o que ainda resta do nosso patrimonio artistico.
Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudança de dono, pela mudança de destino, pela transformação mais radical da vida interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o typo das habitações nobres em Lisboa.
Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, á Junqueira; o do marquez de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela collecção das suas mobilias; á Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez de Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio do seculo, como o do barão de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde de Almada, e o do conde de Sampaio.
A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invasão franceza, verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peças das industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes de charão, bufetes e contadores feitos na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D. Manoel, por artistas indianos.
Os serviços de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas da China e do Japão. A collecção das colxas e dos panos de armar, com que no dia da procissão de Corpus-Christi se revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes desenhos persas.
Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias famosas de Lisboa.
Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes, as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,—restos de coifas, de face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.
As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em bestiões e em silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laçarias, eram um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes festas do anno em todas as casas de jantar.
O mogno francez do imperio, com as suas applicações de bronze, representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com as modas da revolução liberal muitas casas lisboetas, sem todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascença, em cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na época de D. João V e de D. Maria I.
Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos, em escala mui clara, tão caracteristicos da nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da Sé Nova de Coimbra.
O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que não occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na sua machineta em forma de urna, semelhante ás que se destinavam a conter uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.
Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel galeria de pintura: paineis de devoção, retratos de antepassados, e um ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame Guiard, por Gérard e por Therbouché, em casa do visconde de Sobral. Entre os quadros de devoção destacavam-se frequentes obras primas nacionaes, do seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e Julia.
Nos sotãos d'essas antigas casas havia accumulações seculares de moveis inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão, abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol, que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa, ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da civilisação moderna.
E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões despejados.
Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores genealogicas.
Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus e do marquez de Borba em Santa Martha.
O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle incomparavel monumento.
Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas—almafres, capellinas, bacinetes, barbudas e morriões—, couraças, escarcellas, grevas, manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:—«Aquella é a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos, morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da padeira Brites—Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit,—a qual pá uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.
Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.
Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das conquistas, mas de simples prata dourada.
Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se ainda por fazer.
A restauração dos antigos quadros está constituindo na historia da nossa arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restauração da nossa architectura.
Alguns annos mais sobre o systema devastador que se está seguindo, e ninguem poderá reconhecer nas taboas da nossa grande época uma só pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten Massys ou os Dierik Bouts.
N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida portugueza desde o meiado do seculo XV até o fim do seculo XVI, isto é, durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu da nossa gloria. São raras as puras composições historicas e raros os retratos d'esta época. Os grandes feitos da navegação e da guerra celebravam-se de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, e constituiam o principal adorno d'arte dos paços dos reis e dos palacios dos nobres. Na pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos, conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo misturam-se em brilhante anachronismo ás figuras sagradas, e muitas authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos está ahi, por nós mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes. Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes, os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascença. São essas as caracteristicas figuras dos nossos avós: as faces cheias, a pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A essas nobres e delicadas cabeças femininas serviram de modelo as mais lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulação leve, sinuosa e ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os utensilios da casa e os estados do espirito.
O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais bella obra da nossa historiographia.
A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos seculos XV e XVI, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam todas as aptidões intellectuaes de que dispõe o paiz, por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o quadro:
1.º Os aspectos da paizagem, os caracteres da flora e da fauna portugueza, que nós tão opulentamente enriquecemos, pelo commercio das conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro jardim de acclimatação, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado da Europa, pela introducção do chá, do café, do assucar, do algodão, da pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylão, do cravo das Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya, da onça, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo arabe.
2.º O mobiliario, cuja fabricação tão fecundamente desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administração de Affonso de Albuquerque.
3.º A indumentaria, comprehendendo, além da historia do traje, a dos tecidos, a dos bordados e a das rendas, industrias procedentes da China, da Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas pelo nosso contacto nas suas origens, tão especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lavôr do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha as mais pacientes e subtis lavrandeiras mandadas á rainha pelos capitães da India.
4.º As armas, de guerra, de torneio e de côrte.
5.º A ourivesaria e a joalharia, abrangendo a analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a tão curiosa evolução em Portugal da fórma e do ornato dos calices, das custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peças em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascença, como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros, taxos de perfumar luvas, copas, taças, gomis, bacias d'agua ás mãos, maças, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar, guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias, guarnições de coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabeça, tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.
6.º As embarcações—galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas, toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestões do mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo de Herodoto.
7.º A olaria e a cestaria popular, em que tão atticamente se affirma o hereditario engenho artistico da nossa raça, e cujos productos tanto se compraziam em reproduzir os nossos pintores.
8.º Emfim: A psychologia das figuras pela physionomia, pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba, etc.
Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza artistica da nação, não ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa ás fontes da tradição e da nacionalidade, em que cada um de nós tem a mais restricta e a mais instante obrigação de ir retemperar e fortalecer de portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educação a que se pode condemnar um paiz.
Não ha collecção publica, chronologicamente completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta industria artistica é no emtanto d'aquellas de que mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a evolução peninsular, de influencia mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo azul e branco, em vastas composições historicas e de genero, paizagens, merendas, caçadas, allegorias religiosas e lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado talento de composição historica e decorativa.
Raro será o anno em que de Portugal não tenha desapparecido um quadro inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de coherção, sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das côrtes ou da imprensa. Á hora a que escrevo estas linhas me dizem que está á venda ou vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindára um fidalgo da sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que era uma gloria da nação.
Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.
É bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes, fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se suavemente, a pouco e pouco, até chegar a não existir do deposito primitivo senão unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia sido collocado.
O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos por Estacio da Veiga, ainda hoje se não acha instalado.
Da inestimavel collecção das antigas peças de louça e de obras de barro, que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu tudo.
Tão vasta é a nossa riqueza artistica e tão profundo o desleixo de a escripturar, que são quasi tão frequentes as surpresas no que se encontra como no que se perde.
Como exemplo direi que era assentado não haver em Portugal vestigio algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e não existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente propriedade da Bibliothèque Nationale, em Paris. É entretanto nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios personagens, é da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia de data e de assumpto. Está bem conservado, e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente de Fóra, no vão de uma janella, junto dos aposentos habitados n'essa occasião por s. ex.a revd.ma o sr. [arcebispo] de Mitylene.
O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma reproducção photographica, destinada a illustrar a nova edição ingleza da Chronica da Guiné.
Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto Nepomuceno comprou por 300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela mão d'obra e pelo estado de conservação em que se acha, uma das obras capitaes da esculptura da Renascença em Portugal. Compõe-se de dezesete figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor, está prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra a composição um bello portico, de columnas e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos Valles. Só outro Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja, á esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.
Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthéon dos Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente regio dos Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mór da egreja constituem uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis contos de réis.
Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior aos dos quadros de mesma época recolhidos pelo estado depois da abolição das ordens religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, só á sua parte, noticia de não menos de cem obras desconhecidas do publico. Das que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da Academia das Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, não ha uma só photographia registrada pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos os museus do mundo.
Por occasião da ultima exposição, tão interessante, realisada nas salas devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio, a direcção das Bellas Artes não respondeu ao pedido da modesta quantia de 50$000 réis que a commissão executiva da mesma exposição lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em manuscripto na mão do redactor.
Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos photographos portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes tão valiosos e desinteressados serviços devem as artes portuguezas, dirigiram ao governo uma proposta para reproduzir pela photographia,—sem subsidio algum do thesouro—todos os objectos expostos no palacio das Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.
Inutil me parece alludir ainda á dispersão das mais ricas peças do mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascença artistica e industrial do nosso seculo XVIII.
Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas da India, do Japão e da China, credencias, leitos torcidos ou empennachados, canapés e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da Real Fabrica das sedas, louças artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade que bem melancholicamente lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho mestre romano, mas já não ha verrinas.
D'esta desorganisação geral de toda a policia da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra da tradição esthetica nacional, que é a seiva de toda a producção artistica.
Á infecundação do individuo pelo espirito da raça corresponde o desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a esterilidade do estudo, a degeneração da phantasia, o abandalhamento do gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da decadencia geral, a desnacionalisação pelintra de todo um povo.
Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo é producto da arte tudo o que não é unicamente obra da natureza.
O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma fatalmente a configuração das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe enformam a personalidade.
Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de Portugal faltam corações portuguezes.
Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida intellectual.
Em resultado de não termos uma historia geral da arte portugueza, devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos seus capitulos, vemos grassar, não só entre o vulgo mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar e de reger a opinião, o erro criminoso, profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz de concepções artisticas originaes.
A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas seitas.
Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da raça, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das paixões mais profundas, todo de improvisação e de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.
Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimento.
Por egual razão não teem caracter nacional, sendo portanto destituidas de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia mercantil, todas as nossas industrias.
A decapitação official da nossa educação artistica manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na apparencia dos predios, na decoração das praças, das avenidas, dos cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das repartições do estado e das habitações particulares.
Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma sala de concertos populares, nem vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona Maria se não representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se não canta Marcos Portugal, onde não ha um museu de arte decorativa, nem um simples mostruario da nossa producção industrial, nem um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa, a lição que um museu contém, ha pelo contrario escaparates de apparatosos armazens, que são para quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da mais corrompida perversão, do mais provocante e pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de construcção. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade média era um accessorio movel, e só no seculo XVI se principiou a fixar com pregos ao banco ou á cadeira, invade boçalmente todo o movel, armado em ripes de pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente má creação da côr. E horripilantes lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulação do contorno até o material empregado, porque todas as linhas são aleijadas, a prata é zinco, o marfim é gesso, o charão é de papel e o marmore esculpido é de sabão. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos, desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e de canalhismo de casta para a vida toda.
Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao transito do publico, em vez da ornamentação da flora regional, em vez dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em fosquinhas para trambulhões do viandante.
Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas, em Lisboa é prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.
Os lindos empedrados e embrechados de tradição portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a acção do nosso clima.
O tão commodo, tão modico e tão gracioso typo da nossa antiga casa de campo é substituido nas construcções modernas pelas fórmas de um exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confusão allucinada do châlet suisso, do cottage inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita moira,—nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa. Em presença de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta ou de revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicações, anedocticas e chorographicas, será capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre que casta de gente se está passando a peça. Tal é a delirante epidemia de que estão combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter um indicio nacional da nossa tradição, entre as casas de campo ou de praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a Cascaes vêr o typo, unico, da habitação dos condes de Arnozo, tão saudosamente semelhante á casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de pedra, destinados ás varas do estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros e de mangericos, em frente do poço de roldana, no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora.
Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominações que esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade esthetica dos habitantes.
No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas tão sympathicamente suggeria a lembrança bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da Vinha, a do Moinho de Vento, a do Poço, a do Carvalho, a da Rosa, a da Atalaia, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram, como os Calafates e as Gaveas, apaga-se, como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para dar ás ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas moram ou se diz que por lá passaram. E com egual afouteza se dissolvem, n'um borrão de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente vinculados á historia do povo e á historia da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.
Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão suggestivos e tão bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se ridiculamente, porque não ha entre a gente culta quem preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.
Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias populares.
Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de côr e mais graça de risco esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com estopa, com linho, com lã ou com algodão, de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo, de Loulé.
Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.
Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve á iniciativa e á propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o ethereal Ruskin. Este glorioso campeão da esthetica e da arte em todas as suas mais complexas e mais variadas manifestações não pode deixar de ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus profundos estudos de Turner e os antigos e dos Pintores modernos, a sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome consagrado de ruskineana. Grande homem de acção, gloria dos da sua raça, tomando por divisa To day, Ruskin não se emparedou, como a maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das contemplações expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de réis da legitima paterna em subvenções das mais generosas empresas sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundações de escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a trinta contos a edição) um rendimento de riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario. Organisou a casa editora das suas proprias obras, a Ruskin House, fundou a Saint-George's Guild, em Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na National Gallery os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu á arte todo um novo ideal e uma religião nova, creando uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta expressão á auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo, em nome da arte, que um traçado de caminho de ferro deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma commissão da Camara dos Lords a consultar uma commissão de artistas sobre se a passagem de uma linha ferrea não affectaria ruinosamente a parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de certo valle.
É porém com um intuito especial,—a proposito das nossas tão resistentes industrias tradicionaes e domesticas,—que eu invoco o nome glorioso de Ruskin.
O trabalho rural da fiação á mão e da tecelagem no estreito e primitivo tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin, considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de satisfação, de educação esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppressão d'essa antiga actividade artistica da familia no campo inglez, dedicou-se com um esforço portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos de lã em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da força individual uma vela de moinho nos cabeços das collinas ou a corrente da agua á beira dos riachos. Elle mesmo dá o exemplo da nova organisação do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de Laxey. Recompõe-se uma antiga roda de fiar com as peças desarticuladas e esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de uma velha tecedeira. É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente, encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo, espadelado, assedado, fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, á porta ou á janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice, substituida á banal perfeição estupida e antipathica do apparelho mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiação a vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto aperfeiçoado, recebe a alta protecção da princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente por preços consideravelmente superiores ao dos productos da grande industria mechanica.
Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na ilha de Man. É conhecida não só em toda a Inglaterra mas em toda a Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados á mão, de desenhos combinados na urdidura e na trama com as côres naturaes da lã, sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça, de viagem, de equitação, é o famoso homespun ou Laxey homespun, do nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É a esta evolução das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor remunerativo com as grandes industrias, e não a destructiva absorpção do trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu chamo transformação de industrias caseiras em industrias de concorrencia,—formula que geralmente se toma em sentido diverso d'aquelle que eu lhe ligo.
Em Portugal é certo que definham de dia para dia, e que successivamente se vão extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente, por culpa da administração economica dos nossos governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragança a industria da sericultura e a da fabricação do veludo. Acabou em Guimarães, entre outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas e dos brocados. No Algarve talvez que já hoje se não faça um unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares caseiros na Covilhã, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas margens do Lima, porém, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a lã, o algodão, e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais consistentes e mais bellos, de sua fabricação exclusiva em todas as phases por que passa a materia prima, desde que é cegada no campo ou tosquiada no carneiro até se converter em vestido. Á feira semanal de Vianna as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, além dos ovos e dos frangos que criam, além da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho, os cortes de saias de lã e de algodão, as peças de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou á agulha. As de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de Thomar vende-se em graciosos novellos da fórma de casulos a melhor linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se ainda a antiga tradição das mantas do Alemtejo, citadas já por Gil Vicente na Farça dos almocreves, a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de lã, que são o homespun portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis, estamenhas, briches, saragoças, jardos, sorrubecos.
Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico, que á primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as industrias, desde que os aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um tenue fio de arame o quinhão de força que tem para distribuir por cada operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforço propulsôr do sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presença da revolução das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de tradição desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde a tradição sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a todas as oppressões que a esmagam!
É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados, pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho torcido ou entrançado. Ninguem como elle manusêa os ferros e as amarrações, o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha mais dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha e em dar o nó de escota, de fateixa ou de botija, o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho até o Guadiana, a enorme variedade de fórmas nas embarcações da pesca maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a persistencia da tradição no grande genio maritimo de tão pequeno povo.
Os que ainda vão á pesca do bacalhau, á Terra Nova, equipam de uma maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porém o typo latino do hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, á pescada e ao sarrajão, no mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de prôa redonda, apparelhando com dois bastardos. Á pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, de bocca aberta, apparelhando com um só mastro e a verga munida de uma grande vela latina; o barco da pescada, de Buarcos, de borda alta e duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da Nazareth; o barco da sacada, de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a rasca da Ericeira, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canôas de Belem, de Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa enviadas ou canôas da picada, e no Algarve andainas. Na pesca maritima costeira empregam-se embarcações numerosas e variadissimas. Na arte de galeão agrupam-se: o galeão, coberto, de prôa direita e arrufada, apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de prôa e caça á pôpa, em mastro inclinado para vante; o galeonete; o buque, curvo na roda de prôa e sem coberta; a canôa do galeão, e o acostado, que se emprega no transporte do peixe. Na armação fixa do atum e da sardinha, nas almadrabilhas, ou almadravas, como antigamente lhes chamavamos, do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o calão, grande lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por banda, tendo na prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e, pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a barca da testa; a barca das portas; a barca da gacha, e o laúde.
Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o calão é, como alguns barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria para atracar a margens escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao das embarcações portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.
Nas artes de arrastar para terra figuram as xavegas do Algarve, os saveiros e as meias-luas, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e da Galé, e na praia de Sines. Nas redes de alar a reboque trabalham as muletas e os bateis do Seixal.
O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro Estado actual das pescas em Portugal, enumera ainda, entre os diversos typos de embarcações empregadas em varios systemas de pesca, o batel de Espozende, o barco de Vianna do Castello, a barquinha do rio Lima, a bateira da Figueira da Foz, a lancha de Buarcos, a lanchinha do Tejo, o ilhavo da Tarrafa, o batel de Peniche, o cahique e a lancha de Peniche, os poveiros de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o catraio, a mais genuina embarcação portugueza da nossa costa meridional, a caçadeira e a focinheira de porco da Ericeira, a maceira da costa do Norte, o cahique de Sines, o barco minhoto, construido em Lanhellas e em Forcadella, o batel do Cavado, o barco do Douro, o esgueirão da ria de Aveiro, a lancha de Villa Franca, a bateira do Mondego, a lanchinha e a chata do Tejo, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os typos da Africa, dos Açores, da ilha da Madeira, não descriptos, infelizmente. São ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fão e da Apulia, para a apanha do sargaço; as de Neiva e as de Sedovem.
Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos os outros povos, é verdadeiramente inacreditavel que em Portugal não haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem. Não ha tal museu.
Em terra é tão variada a collecção popular das vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros, como é variada na agua a fórma das embarcações. A simples nomenclatura do vasilhame portuguez dá, só de per si, uma idéa, ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas fórmas, porque ha typos que variam de região para região, de dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes são a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, o cantil, a almofia, o alcatruz, o porrão, o côcho, o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeirão, a caldeira e a caldeirinha, o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a pichorra, a botija, a cabaça, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha correspondente á velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastião, sobreviveu porém na tradição e no costume. A sumicha, por exemplo, com quatro decilitros de capacidade, tão maneira, tão graciosa, tão bem proporcionada a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote da região, de uma elegancia tão fina e tão attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.
As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do bombylio, etc., são por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas, as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda mechanica do operario as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a peça por peça, o sorriso acariciante de um artista.
De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o bule de um serviço de almoço, que ficou tradicional na fabricação de Sèvres.
A industria popular da cestaria acompanha na evolução das fórmas a industria do oleiro. Todos os que percorreram as feiras e os mercados do nosso paiz notariam que cada região tem a sua canastra, o seu cabaz e o seu gigo, differentes na fórma ou no ornato. Ha-os de todas as configurações, fundos e chatos, quadrados, octogonos, arredondados, oblongos, cubicos, cylindricos, espheroidaes, lembrando algumas vezes a fórma e a construcção americana dos samburás, dos tipitis e dos côfos tupis, feitos de taquara e de cipó, que introduzimos talvez no Brazil ou, mais provavelmente, lá aprendemos a fabricar, deixando o typo do balaio, com cujo nome se designa ainda na Bahia o farnel que de ordinario se transporta no cesto portuguez d'essa configuração, semelhante á de um alguidar. Mui frequentemente varia tambem o balaio, o canistel, a cesta, a condeça, o ceirão e a ceira, a alcofa e a alcofinha. A materia prima do cesto é o vime, o junco, a fasquia de castanheiro, a fasquia de faia e a canna; a da ceira e da alcofa é o esparto, a engeita, a palha de trigo e de centeio, a tabúa, a juta e a pita. Em algumas regiões, como nas Caldas e Vizeu, os cestos são obras primas incomparaveis de acabamento e de graciosidade. A canastrinha burriqueira das Caldas, reduzida ao miniaturismo de dois centimetros, é um simples prodigio de fabricação minudente e delicada. No Algarve a alcofa, de filiação arabe, é por vezes ornada de apparatosas flores bordadas a seda ou a lã.
Sem embargo, continuando a affirmar-se que não temos sentimento artistico, desistimos por indisciplina, por ignorancia, por desanimo, de transformar em industrias de concorrencia as nossas industrias domesticas, e não negociamos com o extrangeiro nem tecidos de phantasia, tão originaes como os que possuimos, nem papeis pintados derivados d'esses tecidos, nem a louça, nem a cestaria, nem a filigrana, immobilisada em typos decrepitos, e da qual tão lindos effeitos se tirariam, applicando-a em ouro a serviços de toucador, a frascos de cristal, a molduras de retratos, a encadernações de devocionarios, etc, etc.
Tanto menosprezamos os productos quanto desconhecemos as fontes da nossa civilisação artistica.
A arte que menos estudamos é a arte hispanhola, á qual todavia indissoluvelmente nos prendem os mais estreitos vinculos de temperamento, de tradição e de ideal. Juntamente com os hispanhoes recebemos dos arabes as primeiras influencias que em toda a producção artistica da Peninsula imprimiram a feição differencial mais caracteristica e mais indelevel. Aos califados, que cobriram de mesquitas Cordova, Sevilha, Granada, Santarem, Lisboa e Coimbra, devemos o toque de orientalismo peculiar das formas architectonicas do nosso stylo romanico, ogival e da renascença. E da mesma procedencia, mosarabe ou mudejar, são algumas das nossas mais interessantes industrias, como a da filigrana, a dos azulejos, a das sedas, a do papel, a da encadernação, a dos couros lavrados, (a que chamavamos cordovões por nos virem de Cordova) a das esteiras, a dos tapetes, a das obras de esparto, de palma, de pita. Até o fim do seculo XVI artistas portuguezes, leonezes, castelhanos, valencianos, aragonezes, catalães, asturianos, tivemos um ideal commum nas letras, na architectura, na esculptura, na pintura, nas artes sumptuarias e nas artes industriaes, celebrando identicos feitos de guerra, de religião e de amor, servindo reis do mesmo sangue, heroes das mesmas aventuras, santos e santas da mesma invocação popular.
Das nossas relações com Flandres só conheciamos—até ha bem poucos annos—a influencia flamenga em Portugal, ignorando completamente a reciproca acção dos portuguezes em Gand, em Bruges, em Antuerpia. Foi o sr. Joaquim de Vasconcellos quem, investigando os annaes das confrarias e o archivo das feitorias de Portugal, consignou que, em resultado da protecção dada aos artistas nacionaes por D. João II e por D. Manoel, de uma só vez chegaram a reunir-se em Paris cincoenta pensionistas portuguezes. Aos trabalhos do mesmo investigador se deve acharem-se hoje apurados varios nomes de pintores de Portugal trabalhando em Flandres, entre os quaes Edwart Portugalois, discipulo de Quintino Metsys, proclamado em 1504 mestre pintor da confraria de S. Lucas de Antuerpia.
Os trabalhos do sr. Joaquim de Vasconcellos estão sendo diligentemente continuados pelo sr. Sousa Viterbo, na Torre do Tombo, e pelo sr. Joaquim Mauricio Lopes, nosso consul, em Antuerpia.
Em uma recente publicação do sr. Mauricio Lopes, Les portugais à Envers au XVIème siècle, demonstra-se por meio dos mais expressivos documentos que a colonia portugueza, estabelecida em Flandres desde que em 1386 o duque de Borgonha Filippe-o-Ousado concedeu licença para ahi viverem mercadores de Portugal e dos Algarves com as suas familias e os seus creados, foi para a civilisação que os acolheu de uma importancia incomparavelmente superior á que jámais exerceu a colonia flamenga em Portugal.
Os negocios dos portuguezes em Antuerpia, ao tempo da fundação da primeira feitoria de Portugal por D. Manoel, negocios tendo por base, além das exportações do reino, o commercio das especiarias trazidas da India por Lisboa, montavam annualmente a cerca de cinco mil contos da nossa moeda actual. O numero das casas portuguezas em Antuerpia era de cento e doze. Os mercadores portuguezes representantes d'essas casas viviam com um fausto verdadeiramente principesco. Em 1594, por occasião da entrada triumphal de Filippe II, herdeiro de Carlos V, a cavalgada portugueza ficou memoravel. Compunha-se de vinte senhores e de quarenta creados, montando todos cavallos peninsulares, ricamente ajaezados. Os senhores trajavam de brocado e seda côr de purpura, bordada de ouro e de rubis, com botões, passamanes e collares de ouro. Todos os gorros eram orlados de brilhantes. Os creados, equipados, de couraça e espada, vestiam librés de seda verde e branca, com as bainhas das espadas de seda branca.—O que era, segundo o chronista Cornelius Grapheus, chose moult riche et triomphante à voir.
Nas festas da entrada em Antuerpia de Ernesto d'Austria, governador dos Paizes Baixos, os portuguezes erigiram um arco triumphal, em que se viam as figuras da Mauritanea, do Brasil, da Etiopia, da India, da Persia, do Ganges, do Rio da Prata, com as estatuas de Filippe I, do principe Filippe de Hispanha, de D. João II e de D. Manoel. Em outro arco de triumpho, delineado por Ludovicus Nonnius e consagrado a Fernando d'Austria, em 1635, expuzeram os portuguezes diversos quadros representando, entre outras, as allegorias da Victoria, da Clemencia, da Felicidade, da Religião, e os retratos de D. Affonso Henriques, D. João I, D. Manoel e D. Filippe II.
Um d'esses portuguezes, o feitor Antonio Cirne, natural do Porto, nos saraus do Palacio chamado de Portugal, pretextando que a turba ou a lenha cheiravam mal, mandava cosinhar as eguarias com fogo de canela, e queimar canela em todas as fogueiras das chaminés.
Outro portuguez, Simão Rodrigues d'Evora, era barão de Rhodes, cavalleiro, senhor de Tewerden, de Broeckstraate; pela sua enorme fortuna lhe chamavam o rei pequeno; possuia muitos predios na principal arteria da cidade, e habitava um d'elles, em que successivamente se hospedaram a infanta D. Izabel, a rainha Maria de Medicis e o principe cardeal Fernando d'Austria; fundou, com o fim caritativo de recolher doze senhoras da nobreza ou da burguezia reduzidas á indigencia, o hospicio de Sant'Anna, onde um triptyco de Otto Venius representava o retrato do fundador com seus filhos e sua mulher D. Anna Lopes Ximenes de Aragão.
O luxo da colonia portugueza em Antuerpia assumia muitas vezes o mais nobre e mais alto caracter artistico. A enthusiastica hospitalidade conferida pelos portuguezes a Alberto Dürer ficou assignalada pelas grandes festas a que deu origem. Dürer retribuiu esses favores com presentes de quadros e de gravuras aos feitores e aos negociantes de Portugal.
Diogo Duarte, filho de Gaspar Duarte, possuia uma das primeiras galerias de pintura em Flandres. Foi recentemente publicado na Hollanda um catalogo dos seus quadros, entre os quaes havia obras de Dürer, de Breughel, de Metsys, de Maubeuge, de Ticiano, de Tintoreto, de Andrea del Sarto, e um Raphael, que constava haver sido adquirido do principe D. Manoel de Portugal em troco de diamantes no valor de 2:200 florins.
Muitos dos nossos compatriotas estabelecidos em Flandres cultivavam as sciencias e as letras, contando-se entre elles professores, medicos, escriptores celebres, como Amato Lusitano, Rodrigo de Castro, Garcia Lopes, Damião de Goes, etc.
Outro curioso symptoma da nossa desaffeição dos estudos da arte nacional é a estagnação das velhas idéas preconcebidas na apreciação dos nossos monumentos architectonicos. Já me referi ao ôco basbaquismo [privilegiado] de que é objecto absorvente o monumento da Batalha. Devo aclarar um pouco mais, ainda que rapidamente, esse phenomeno.
Por notavel superstição epidemica, por inercia de espirito, por servilismo intellectual, por pedantismo classico, por costume, por commodidade, por convenção admirativa, ou por qualquer outro motivo, os criticos portuguezes, que mais teem governado a opinião, estabeleceram axiomaticamente, como coisa definitivamente demonstrada e assente, que o unico puro e genuino exemplar de stylo gothico existente em Portugal é o da Batalha. Toda a modificação nas linhas constructivas ou nos motivos ornamentaes d'esse typo passou, por effeito de tal dogma, a qualificar-se de decadencia. Capellas imperfeitas, decadencia! Claustro dos Jeronymos, decadencia! Egreja de Christo e de S. João em Thomar, decadencia! Santa Cruz e S. Marcos, em Coimbra, decadencia! Decadencia emfim toda a obra architectonica da época manoelina.
A termos acceitado tal principio na sua applicação pratica, teriamos tido na nossa architectura ogival do seculo XVI um neo-gothico, fixo e invariavel, como o neo-greco-romano da renascença, que é o triumpho consagrado do dogmatismo na arte, a immobilidade canonica nos systemas de construir, a cristalisação da rotina, a sujeição de toda a imaginação, de todo o poder inventivo a uma formula invariavel. Teriamos tido de submetter-nos ao despotismo da Batalha, como tão cegamente, tão estupidamente, tão inconcebivelmente, nos temos submettido por tantas centenas de annos ao despotismo de Vitruvio e das suas cinco ordens, com os seus correspondentes aphorismos de proporção e de symetria, seu pedestal, sua columna e seu entablamento, repetindo sempiternamente, sobre os mesmos dados estaticos, o mesmo denticulo, o mesmo modilhão, a mesma canelura, o mesmo triglypho, a mesma gôta, a mesma carranca! Ora precisamente o stylo manoelino da nossa architectura, com toda a sua effusão esculptural, com todo o avassalante symbolismo dos seus motivos ornamentaes, com toda a arbitrariedade dos seus processos, com todas as suas desproporções e todas as suas assymetrias, não é precisamente senão a contraposição da liberdade creativa dos nossos architectos-esculptores á enfatuação idolatrica, á pedantesca preceituação rhetorica, ao esmagador e exhaustivo despotismo das cinco ordens, com que o neo-classicismo da renascença razoirou todo o talento humano. O stylo gothico prestava-se como nenhum outro, pela extrema flexibilidade dos seus principios fundamentaes, aos desenvolvimentos de pura arte, com que o esculptor, completando a obra do engenheiro, e fazendo-se assim architecto, pode aviventar a pedra de um edificio, convertendo-a n'um elemento de sympathia e de solidariedade social, fazendo vibrar na palpitação do seu lavor evocações de idéas e de sentimentos proprios dos homens da sua raça e da sua terra. Os artistas manoelinos não teriam feito talvez monumentos correctos, na accessão indigente em que as academias empregam esta palavra, mas fizeram monumentos expressivos,—o que é melhor. Porque não são as academias que pautam as proporções e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade objectiva, e communicando aos homens uma vibração nova do sentimento.
A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua categoria, deduz-se da maior ou menor quantidade das idéas que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina. Nos monumentos architectonicos é pela sobreposição do ornato esculptural ás linhas geometricas da construcção que a arte se exerce. É principalmente na esculptura que reside a expressão poetica do monumento.
Em Portugal teem sido acusados os architectos manoelinos de invadirem pelo vegetabilismo ornamental todos os perfis da construcção, submettendo assim as fórmas constructivas á ornamentação esculptural. Os grandes criticos da Inglaterra, que tão consideravel impulso teem dado

ás idéas estheticas e á moderna evolução artistica, entendem porém, ao contrario dos nossos, que a sciencia de edificar e de dispor linhas é na construcção de um monumento um ramo secundario da arte de esculpir. Esta affirmativa envolve a consagração da escola manoelina pela critica que n'este seculo mais minuciosamente e mais profundamente tem estudado a arte gothica e a arte da renascença.
Nada todavia mais afflictivo, de peor indicio para os destinos nacionaes da arte, que o descaso do publico, pervertido em seu instincto pela carunchosa doutrina academica, perante esses monumentos em que sob, o reinado de D. Manoel, os artistas portuguezes tão vigorosamente accentuaram a palpitação victoriosa do genio, da originalidade, da poesia, da gloria do povo lusitano.
O que se convencionou chamar decadencia na ultima evolução do stylo gothico em Portugal é a modificação portugueza d'esse stylo, é a sua nacionalisação, é a originalidade local, imposta pelos architectos portuguezes do seculo XVI, a um systema geral de construcção, commum a toda a Europa. Dirão que não é isso precisamente um novo stylo. Certamente que não, se unicamente chamarmos stylo novo em architectura á constituição complexa e integral de todo um systema de edificar. Mas, se tomarmos a palavra stylo em tal accepção, nenhum stylo é novo em toda a architectura da edade média e da renascença. Todo o processo constructivo nos veiu inicialmente da Grecia, de Roma, de Bysancio, da Syria, do Egypto. Os mesmos gregos não inventaram a columna, nem os romanos descobriram a abobada. O que constitue a originalidade na architectura de qualquer povo é, como em Portugal, na época manoelina, a subordinação de um systema qualquer de geometria architectural ás condições do clima e da paizagem, á natureza dos materiaes empregados, á flora, á fauna, á concepção religiosa, á historia, á poesia, ao temperamento e á psychologia dos artistas, em cada região. Quanto mais intensa for a intervenção d'esses factores mais original será a obra. Assim, na evolução do gothico na architectura portugueza, quanto menos modificado, isto é, quanto mais puro fôr o stylo, mais insignificante será o monumento como documentação artistica, como expressão social.
É á decadencia do gothico da Batalha que nós devemos o incomparavel claustro dos Jeronymos, segundo Haupt o mais bello claustro de todo o mundo, bem como a fachada da egreja de Christo, em Thomar, onde a flammejante janella da sala do capitulo é a obra mais eloquente, mais convicta, mais poetica, mais enthusiasticamente patriotica, mais estremecidamente portugueza, que jámais realisou em nossa raça o talento de esculpir e de fazer cantar a pedra.
Na ornamentação d'essa janella, em que, juntamente com o sentimento mais entranhado das energias da natureza, rebenta, palpita e brada, em torno da idéa christã, todo o sagrado pantheismo das velhas religiões da India, conjugam-se, n'uma gloriosa harmonia de antiphona a toda a voz, acompanhada ao orgão, no deslumbramento dos cirios, no aroma das açucenas, no fumo dos thuribulos doirado pelo sol, os elementos decorativos do symbolismo mais poderoso, da suggestão mais profunda. O artista, em plena posse da sua idéa, em completa independencia do seu espirito, em inteira liberdade dos seus meios de execução, desdiz todos os votos, abjura todos os principios, renega todos os canones, infringe todas as regras, e prescinde de todo o applauso dos mestres, sufocando nas entranhas da sua propria vaidade a opinião de si mesmo, unicamente porque tem fé na verdade que enuncia, porque concentrou toda a força da sua alma, toda a energia do seu cerebro, toda a paixão do seu sangue, no amor da obra em que elle representa o pensamento que o domina. E em torno d'elle e d'esse objecto amado, como em torno de todos os que verdadeiramente amam, tudo mais na terra acabou e desappareceu.
As columnas na janella da sala do capitulo são polipeiros de coral, dos mais profundos recifes do Oceano, e troncos d'essa palmeira, cuja sombra cobriu o berço da civilisação no littoral mediterraneo, providencia dos peregrinos nos oasis do deserto, á qual os arabes da Peninsula dedicavam uma festa de primavera, tendo por fundamento a disseminação do polen,—a arvore santa, a arvore da Biblia, a arvore de Jesus, cujo ramo symbolico é um attributo da paixão e da paschoa, da gloria e do martyrio. Os demais elementos decorativos são as ondas do mar, taes como ellas se representam na heraldica; são os troncos seculares e as raizes profundas dos sobreiros dos nossos montes, extrema expressão de força na fecundidade da seiva, que prende o roble, assim como a tradição e a familia prendem a debil e errante creatura humana, ao coração da terra em que nasceu. Guizeiras, como as das mulas de tiro engatadas á carreta alemtejana, emmolham contorcidas varas de sobro e de azinho, como nos feixes de lictor da magistratura romana. Solidas correntes e possantes cabos de bordo, de que pendem em discos as boias de cortiça, enlaçam a decoração, amarrando-a vigorosamente á empena por fortes argolões, como se amarraria uma nau ao caes de um porto. Toda a composição, partindo das espaduas de um homem, que parece sustentar-lhe todo o peso, ascende n'uma trepidação de algas e de folhagens para a cruz de Christo entre as espheras que tomara por empresa o rei venturoso de Portugal triumphante na vastidão dos mares, em todo o circuito do globo. E o poema esculptural remata por cima da janella na rosacea magestosa do templo, formada em circulo pelas pregas e pelo bolso arfante da vela rizada de um galeão da India.
O nosso povo porém desaprendeu de ver a obra artistica do seu passado, e nem sequer levanta os olhos para os seus mais communicativos monumentos, que ninguem lhe explica, que ninguem o ensina a comprehender e a amar.
Resumamos agora a historia do que officialmente se tem feito no intuito malogrado de proteger os monumentos publicos e de conservar e defender os productos d'arte.
Em julho de 1890 o então ministro da Instrucção Publica consultou sobre a questão de que se trata uma commissão de artistas, de archeologos e de escriptores. Da resposta, até hoje inedita, d'essa commissão, de que me coube a honra de ser relator, transcreverei alguns periodos.
O arrolamento da nossa riqueza artistica, que se propõe effectuar o ministerio da instrucção publica e das bellas artes é—ponderava o relatorio—a pedra fundamental de toda a construcção destinada a dar á arte portugueza o logar que lhe compete na historia geral da nacionalidade, na orientação do sentimento collectivo do povo, no conjuncto dos elementos de impulsão e de progresso para o desenvolvimento das industrias, no respeito do paiz, emfim, e no da Europa.
O inventario de que se trata, comprehendendo não só os edificios monumentaes mas os documentos archeologicos e os productos artisticos de toda a especie, seria, primeiro que tudo, a documentação preciosa para a historia da arte em Portugal,—determinação das suas origens ethnicas e sociaes, fixação dos seus caracteres distinctivos e sua relação com a psychologia do povo, com os sentimentos, com as aspirações, com as ideias, com os costumes e com as instituições sociaes. Esse repositorio tornar-se-ia o espelho em que se achariam reflectidas, com todas as suas modalidades, segundo as influencias especiaes de cada época, de cada phase de cultura, de cada estadio social, todas as forças emotivas, todas as aptidões estheticas da nossa raça. A historia dos seus monumentos é para cada povo a historia da sua individualidade, porque não ha monumento artistico que não traduza, mais ou menos directamente, a acção intellectual e politica da sociedade que o concebeu.
A ideia do inventario projectado não é—para honra nossa—inteiramente nova. No reinado de D. João V existia na Bibliotheca Real uma obra em cinco volumes, datada de 1686 e intitulada «Theatro do reino de Portugal e dos Algarves por suas cidades, villas, fortes e fortalezas como que por scenas repartido.» Mais tarde mandou o referido soberano ao Padre Frei Luiz de S. José, monge do Cister e artista peritissimo, que fizesse os debuxos de todas as povoações do Minho, o que elle cumpriu no anno de 1726. Por indicação da Academia Real da Historia, e para o fim de inventariar e conservar os monumentos nacionaes, publicou-se o decreto de 20 de agosto de 1721, e fundou-se o primeiro dos nossos museus archeologicos. Infelizmente os livros a que nos referimos não chegaram a ser dados á estampa, e os originaes foram destruidos pelo terremoto de 1755, juntamente com a Bibliotheca Real, e com o museu estabelecido nas casas dos duques de Bragança, ao Thesouro Velho.
As disposições do alvará de 20 de agosto de 1721 constam do seguinte trecho do mesmo alvará: «Hei por bem que d'aqui em deante nenhuma pessôa de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em todo nem em parte, qualquer edificio, que mostre ser d'aquelles tempos (assim designados: Phenices, Gregos, Persos, Romanos, Godos e Arabios) ainda que em parte esteja arruinado; e da mesma sorte as estatuas, marmores e cippos em que estiverem esculpidas algumas figuras, ou tiverem letreiros phenices, gregos, etc.; ou laminas, ou chapas de qualquer metal, que contiverem os ditos letreiros, ou caracteres; como outrosi medalhas ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos inferiores até o reinado do Senhor Rey D. Sebastião; nem encubrão ou ocultem alguma das sobreditas cousas: e encarrego ás camaras das cidades e villas d'este reyno tenham muito particular cuidado em conservar e guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade que houver ao presente, ou ao deante se descobrirem nos limites do seu districto; e logo que se achar ou descobrir alguma de novo, darão conta ao secretario da dita Academia Real para elle a communicar ao director e censores, e mais academicos; e o dito director e censores, com a noticia que se lhes participar, poderão dar a providencia que lhes parecer necessaria para que melhor se conserve o monumento assim descoberto. Etc.»
Em 4 de fevereiro de 1802, novo alvará sobre a mesma materia, assim designado: «Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real he servido suscitar o alvará de lei de 20 de agosto de 1721, ordenado em beneficio da Academia Real da Historia Portugueza para a conservação e integridade das estatuas, marmores, cippos, e outras peças de Antiguidade: mandando que as funcções do mesmo Alvará, que até agora pertenciam ao secretario da dita Real Academia, fiquem da data do presente em deante pertencendo ao Bibliothecario Maior da Bibliotheca Publica; tudo na forma acima declarada.»
Em janeiro de 1844 o Bibliothecario Mór da Bibliotheca Nacional de Lisboa José Feliciano de Castilho, informava o respectivo ministro nos seguintes termos: «Para o bibliothecario mór passaram attribuições que competiam á Academia Real da Historia, mas infelizmente essa lei vigente tem sido até hoje letra morta, a tal ponto que até ignoram as suas disposições os proprios encarregados do seu cumprimento, com grave detrimento, não só d'este magnifico repositorio, que ha muitos annos se acha estacionario em aquisições archeologicas, mas tambem de todo o reino, onde o bibliothecario mór deveria sempre ter, por obrigação do seu cargo, promovido a conservação e segurança dos monumentos que não podem ou não devem transportar-se.»
Em seguido propõe o bibliothecario que se torne effectiva a responsabilidade dos governadores civis no cumprimento da lei de 20 de agosto de 1721; que esses funccionarios se correspondam regularmente com o bibliothecario, etc.
Ficou porém tão morta a letra d'essa consulta como a da lei a que ella se refere.
Por decreto de 10 de novembro de 1875 é nomeada uma commissão para propôr ao governo, com a reforma do ensino das Bellas Artes e com o plano de um museu, «as providencias que julgar mais adquadas á conservação, guarda e reparação dos monumentos historicos e dos objectos archeologicos, de importancia nacional, existentes no reino.» A commissão alludida responde ao governo por meio da memoria redigida pelo marquez de Sousa Holstein, e assim se desempenha do encargo que lhe fôra confiado.
A louvavel diligencia empregada a convite do governo pela Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, para o fim de lançar em 1880 as bases de uma inventariação systematica dos monumentos nacionaes, não foi, assim como o zeloso trabalho da commissão de 1875, seguida de resultados praticos.
Independentemente da preceituação official, teem sido modernamente do mais importante auxilio para o conhecimento dos nossos valores artisticos a Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental, celebrada em Lisboa em 1882, a exposição de Coimbra, a exposição de Aveiro, a exposição de Guimarães, a recente exposição do centenario antonino, e as exposições de ourivesaria e de ceramica promovidas e effectuadas no Palacio de Cristal do Porto pela muito benemerita Sociedade de Instrucção.
De algumas das exposições alludidas ficaram documentos de alto valor. Imprimiram-se relatorios de muita importancia, e numerosos productos expostos foram reproduzidos pelo desenho e pela photographia. Da valiosa collecção photographica, para a qual principalmente contribuiram Carlos Relvas, Pardal, Rochini, Biel & Companhia, bem como dos catalogos dos museus e das exposições celebradas, se poderia extrahir desde já um esboço de inventario, que não seria difficil aperfeiçoar e prehencher, emprehendendo novas exposições e systematisando completamente as investigações e os estudos correlativos.
A commissão de 1890, a que acima me referi, propunha que, sem prejuizo das pesquisas que, convém continuar, para recolher ou arrolar os valores artisticos que ainda se conservam ignorados em poder de corporações ou de particulares, a commissão incumbida do inventario geral e definitivo desse quanto antes principio aos seus trabalhos, tomando por materia as peças de que ha conhecimento, já pelo exame de que foram objecto nos museus onde existem, ou nas exposições até hoje feitas, já pelos catalogos e relatorios que d'essas exposições existem, já pela consideravel collecção de photographias que reproduzem os objectos expostos.
Emquanto á catalogação e á conservação dos objectos pertencentes a particulares ou a corporações de caracter civil ou religioso, não conviria desde já estabelecer principios absolutos. O modo de proceder dos delegados do governo em tal serviço seria indicado pelas circumstancias particulares de cada occorrencia, sendo porém altamente para desejar que os prelados do reino, conscientes dos estreitos vinculos que ligam o esplendor das artes á gloria do catholicismo, conseguissem fazer penetrar na convicção das auctoridades eclesiasticas das suas circumscripções quanto é inseparavel da historia da egreja a historia da arte christã, e quanto o museu, em paizes tradicionalmente catholicos, é ainda uma fórma do culto ou um desdobramento d'elle na ordem civil, além de ser o permanente attestado da alliança da crença religiosa com a immortal aspiração da poesia no coração e no espirito da nossa raça.
Para regra definitiva do processo a que se refere o alvitre que acabo de expor é indispensavel que seja devidamente estudada e promulgada uma lei, semelhante á que existe hoje na Italia, em França, nos Paizes Escandinavos, na Russia, na Hispanha, na Grecia, na Turquia, tendo por fim definir claramente e assegurar, de combinação com a legislação canonica, com os principios da concordata e com a legislação geral da propriedade, os direitos especiaes do Estado com relação á guarda dos monumentos e á parte que elle tem na posse dos objectos d'arte, determinando assim o caracter especial da propriedade artistica.
Uma vez decretada essa lei fundamental, e assignalada a responsabilidade em que incorrem os que a transgridam, deveriam formar-se as commissões regionaes, dependentes da commissão central, e incumbidas, em suas localidades, da guarda e da conservação dos monumentos e dos objectos d'arte. Estas commissões, á semelhança do que foi disposto na lei italiana de 1878, da qual se inspirou em França, para a organisação de eguaes serviços, a Direcção das Bellas Artes, seriam compostas de oito vogaes, sendo quatro da nomeação dos municipios e quatro da nomeação do governo, com um architecto inspector adjuncto, sob a presidencia do governador civil ou do administrador do concelho.
Em toda a parte, ainda nos mais abandonados recantos da provincia, ha sempre, onde existe um monumento, um homem pelo menos que o ama, que o estuda, que o comprehende. É a collaboração preciosa d'esses pobres poetas obscuros, d'esses modestos archeologos, ignorados da critica e do publico, que aos organisadores das commissões locaes compete acolher e utilisar.
O processo de inventariação de cada peça artistica constaria de duas partes.
A primeira seria a reproducção photographica, ou em gesso, ou pela galvanoplastica, do objecto inventariado, com registro do respectivo cliché ou molde.
A segunda, a confecção de um simples verbete, impresso, correspondendo á photographia por meio de um numero de ordem, e satisfazendo os seguintes quesitos: 1.º Descripção summaria do objecto; 2.º Logar onde elle se encontra; 3.º Nome do individuo ou da corporação em cuja posse se acha; 4.º Antecedentes; 5.º Attribuição; 6.º Avaliação; 7.º Escala em que houver sido feita a reproducção.
Este systema, semelhante ao dos museus de Londres, de Berlim e de Vienna, é o mais simples, o mais economico, o mais pratico, o mais expedito. Com applicação ao inventario da arte hispanhola elle foi proposto, pelo delegado de Portugal, ao grande jury da ultima exposição historico-europeia em Madrid. Uma real ordem o mandou pôr em execução, tendo-o sanccionado a approvação unanime de uma commissão presidida pelo sr. Canovas del Castillo e composta de criticos de uma competencia indiscutivel e de uma notoriedade europeia.
Com a collecção completa das photographias e dos verbetes a que alludo, o estado, em Portugal, sem ter da riqueza artistica da nação um inventario tão desenvolvido e tão perfeito como o que outros paizes possuem, teria no emtanto um arrolamento explicito, e achar-se-hia habilitado a ministrar-nos o mais efficaz meio de estudo.
Da collecção integral, subdividida em tantas series diversas quantos os differentes criterios de classificação que se lhe applicassem, se extrairiam collecções especiaes, em edições mais ou menos modestas, relativas a cada ramo do ensino, geral ou especial, e destinadas ás escolas de bellas artes, ás escolas industriaes, aos museus das escolas primarias e secundarias, ás officinas, aos operarios, facultando assim, ou gratuitamente ou por infimo preço, a todas as classes sociaes um pronto meio de conhecimento da historia geral da arte, da historia da arte em cada uma das suas mais especiaes applicações, da evolução das fórmas e do desenvolvimento dos stylos, na architectura, na pintura, na esculptura, na marcenaria, na serralheria, na ourivesaria, na ceramica, em todos os ramos emfim do trabalho artistico e industrial.
Eliminando os numeros que relacionam os verbetes com as photographias, os alumnos das escolas d'arte, procurando para cada photographia o verbete correlativo, e satisfazendo por esse processo aos mais variados quesitos de classificação, habituar-se-hiam, por meio dos exercicios mais simplesmente pedagogicos, a discernir as épocas e os stylos, retendo todas as diversidades da fórma pela memoria da vista.
Além do que, com o material reunido para o inventario dos monumentos architectonicos e das riquezas artisticas da nação, o estado fundaria simultaneamente o mais interessante museu de reproducções.
A Commissão dos Monumentos Nacionaes não é inteiramente, pelos seus meios de acção e pelos seus fins, a commissão a que se refere a consulta de 1890. Parece-me indispensavel, antes de tudo, que esta commissão se reconstitua em bases mais amplas, e que d'ella se desdobre a commissão do inventario geral da d'arte, ao qual é urgentissimo que se proceda.
Na parte em que a commissão tem de responder pela conservação dos monumentos nacionaes, é preciso, a meu ver, que ella se complete, tanto no programma dos seus trabalhos como no pessoal que tem de pôr em execução esse programma, não de um modo como até hoje officioso e facultativo, mas rigorosamente obrigatorio, sendo-lhe indispensavel para esse effeito a aggregação e a collaboração effectiva de dois architectos, a presidencia do sr. ministro, e a publicação periodica de um boletim em que regularmente se communiquem ao publico os resultados do trabalho feito.
Conseguidas as condições de consistencia technica, de auctoridade e de expediente, que no estado presente lhe fallecem e a innutilisam, cabe á commissão arrolar definitivamente, pela photographia e pela escripta, os monumentos confiados á sua guarda bem como as obras d'arte que o paiz possue; nomear as commissões locaes; definir claramente o que é conservar, o que é restaurar, e o que é continuar ou concluir um monumento; redigir desenvolvidamente e em suas mais particulares minudencias (porque n'este ponto tudo está por definir e por estabelecer) os programmas especiaes a que tem de satisfazer rigorosamente todo o projecto de conservação, de restauro ou de acabamento na obra de cada edificio.
Os cuidados de conservação devem ser obrigatorios e extensivos a todos os monumentos. Para esse effeito o programma é simples, e a despesa insignificante, ainda perante os mais modestos recursos. As occasiões em que cabe restaurar são relativamente raras. E nenhum edificio, qualquer que seja a sua importancia historica ou artistica, convem concluir, a não ser nos casos em que vantajosamente elle se possa adaptar a algum dos serviços vigentes da civilisação contemporanea. Este mesmo criterio economico se deveria applicar á opportunidade das restaurações. Da inobservancia d'estes preceitos fundamentaes resultou o contrasenso de restaurar o edificio dos Jeronymos sem previamente se accordar no destino que tem de ter esse edificio, como se podesse ser indifferente, no modo de reconstruir uma casa, que ella tenha de ser uma escola, um museu, um archivo, um recolhimento, um quartel, um banco ou uma habitação particular![1]
Ao governo de sua magestade, para esse fim solicitado pelos homens que com tão patriotico desinteresse constituem a Commissão dos Monumentos Nacionaes, compete prefazel-a e fortifical-a com a regulamentação e auctoridade de que ella carece, ou dissolvel-a.
Se o Estado não intervem cumpre aos governados levar a effeito, por um decisivo esforço de iniciativa, a obra a que se recusem os que governam.
Está-nos dado o exemplo na actividade e na abnegação de alguns cidadãos benemeritos.
O sr. bispo-conde de Coimbra funda na sua diocese o mais completo e mais interessante museu de ourivesaria sagrada que existe em Portugal, e emprehende e realisa, sob a intelligente collaboração do sr. Antonio Augusto Gonçalves, a restauração da Sé Velha e a de Santa Cruz, com uma segurança de criterio, de que não ha exemplo em obra alguma do mesmo genero modernamente consumada pelas officinas officiaes.
O sr. bispo de Beja applica um egual fervor ás obras do convento da Conceição; e na mesma cidade de Beja por iniciativa da municipalidade, por concurso patriotico de alguns cidadãos, funda-se o mais copioso e o mais bem catalogado dos nossos museus archeologicos.
Em Evora o sr. Francisco Barahona custeia por si só a dispendiosa reparação do sumptuoso templo de S. Francisco, sem a qual teria já desabado ou desabaria em breve a mais bella egreja portugueza do tempo D. João II.
Na ultima visita que fiz, em setembro passado, á Sé de Braga, ahi me foi affirmado que o respectivo prelado estava elaborando o projecto da reconstituição artistica d'aquelle importante monumento.
Em Cette e em Paço de Sousa, camaras, juntas de parochia, simples influencias individuaes invidam os mais louvaveis e mais instantes esforços para a conservação dos monumentos gloriosos a que n'esses logares se alliam os nomes de Egas Moniz, de Gonçalo Veques e de Estevam da Gama.
A obra tão desvelada da extincta Sociedade de Instrucção do Porto e a da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, são verdadeiros monumentos de erudição, de estudo, de trabalho pratico, de piedade patriotica.
Para a constituição integral da historia da arte e da tradição artistica portugueza, quantas contribuições dedicadas, quantos esforços individuaes, desassociados e dispersos, na obra, tão incomprehendida e tão despremiada, dos srs. Joaquim de Vasconcellos, Martins Sarmento, Antonio Augusto Gonçalves, Gabriel Pereira, Sousa Viterbo, Luciano Cordeiro, Ferreira Caldas, Ribeiro Guimarães, Alberto Sampaio, Julio de Castilho, Theophilo Braga, Leite de Vasconcellos, Pinho Leal, Albano Bellino, Teixeira de Aragão, Vilhena Barbosa, Conceição Gomes, Filippe Simões, Manoel de Macedo, José Pessanha, Fonseca Benevides, Valentim, Vieira Natividade, Figueiredo da Guerra, visconde de Condeixa, Borges de Figueiredo, Marques Gomes, Rodrigo Vicente de Almeida, Zephyrino Brandão, Possydonio da Silva, Freitas Costa, Avelino Guimarães, Freire d'Oliveira; e quantos outros, tanto mais sympathicos quanto mais obscuros!
O unico inutil da phalange sou talvez eu, que em vez de uma accurada monographia, estou aqui fazendo um indice de assumptos, que só devidamente trataria se de cada uma d'estas paginas tirasse um livro. Possam ellas ao menos communicar a outros corações a sympathia, que filialmente prende o meu á terra em que nasci, e á raça de que procedo!
É pelo culto da arte, invocado n'estas paginas, que a religião da nacionalidade se exteriorisa e se exerce.
Desde que nas consciencias se extinguiu a fé, é por meio da arte que as tradicções se transmittem, que os sentimentos se coordenam, que os affectos se depuram, que as paixões se enobrecem. É pela arte, que a exprime, que a poesia do christianismo sobreviverá aos seus dogmas no enternecimento, no amor, na saudade dos homens. É tambem pela arte que em nossa memoria a poesia da historia sobreleva das instituições, dos systemas, das theorias e dos homens, sobre que ella versa.
A politica, depois da desastrosa fallencia de todas as modernas theorias liberaes, cessou por toda a parte de ser um foco de attracção para as idéas ou para os sentimentos humanos. As leis continuam a fazer-se com o destino unico de serem consecutivamente e invariavelmente decretadas, infringidas e revogadas, para se substituirem por leis novas, que por seu turno se decretam, se infringem e se revogam, como succedeu ás anteriores, como succederá ás que se seguirem.
No momento presente são unicamente os poetas, os philosofos e os artistas que governam espiritualmente o mundo. D'ahi, nos paizes de cultura mental, dominando todos os phenomenos da decadencia moderna, uma effusão de sympathia, de tolerancia, de benevolencia, de perdão, que caracterisa bem o nosso tempo, e de que não ha na historia outro exemplo.
Quando recebemos da Inglaterra a ultima affronta de chancellaria, a que deu motivo o tratado de Lourenço Marques, quem na minha susceptibilidade portugueza mais suavisou esse golpe foi o critico d'arte John Ruskin, proclamando solemnemente e categoricamente aos estudantes de Glascow que os estadistas inglezes (tratava-se então do sr. Disraëli e do sr. Gladstone) lhe não mereciam nem mais respeito nem mais consideração que duas velhas gaitas de folle.
Ruskin separava assim e distinguia radicalmente a Inglaterra do Foreign Office e de lord Salisbury, da Inglaterra de South Kensington, de British Museum, da National Gallery, de Ruskin Museum, de Darwin, de Spencer, de Carlos Dickens, de Turner, de Burne Jones, para a qual tenderá sempre e irrevogavelmente a terna gratidão do nosso espirito.
É unicamente pela arte, inherente á natureza humana, progressiva e eterna, que hoje em dia os homens se associam no destino e na solidariedade da especie.
É pela arte que o genio de cada raça se patenteia, que a autonomia nacional de cada povo se revela na sua autonomia mental, e se affirma, não só pela sua especial comprehensão da natureza, da vida e do universo, mas pelo trabalho collectivo da communidade, na litteratura, na architectura, na musica, na pintura, na industria e no commercio.
É pelo culto da arte, e pela educação artistica que esse culto comprehende, que a producção industrial se especialisa, se valorisa pela originalidade caracteristica do producto, e transforma pela prosperidade, unicamente determinada pelo ensino, toda a economia de uma nação, como se evidenciou nos ultimos tempos em Inglaterra, na Austria, na Allemanha, por via da simples reconstituição dos museus e da multiplicação das escolas.
Finalmente,—se para cada povo a arte é a segurança da tradição, o refugio das consciencias, o mais puro reflexo da imagem benigna da patria, a fonte mais caudal de todos os progressos moraes, economicos e até politicos,—para cada homem, na tortura de tantas incertesas moraes na magoa e na ruina de tantas crenças extinctas, de tantos ideaes desfeitos no melancholico decurso da nossa edade, a arte é ainda—como diz Schopenhauer—a unica flôr da vida.
Notas:
[1] O conspicuo parecer, que, a respeito das obras dos Jeronymos, foi pelo sr. Luciano Cordeiro apresentado á Commissão dos Monumentos Nacionaes, em sessão de 7 de novembro de 1895, termina, depois d'outras, pelas conclusões seguintes:
«5.ª O Templo deve ficar destinado, sómente, ás grandes celebrações religiosas do Estado, e a Galilea a jazida dos restos dos Descobridores e Navegadores portuguezes.
«6.ª Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado a alojamento e installação do Archivo Nacional, convindo que essa installação se ache concluida até o mez de maio de 1897.»
Não concordo inteiramente com o sr. Luciano Cordeiro em que se transporte para o edificio annexo á egreja dos Jeronymos o archivo da Torre do Tombo, e tão pouco em que se remova da egreja o exercicio parochial do culto.
Por complexas razões, que não vem para aqui desenvolver, eu votaria por que, em vez do archivo da Torre do Tombo se estabelecesse o museu naval no edificio dos Jeronymos. E emquanto a egreja, além de que, em minha humilde opinião, o clero a saberia sempre guardar muito melhor do que o estado, accresce ainda que a parochia de Santa Maria de Belem é uma instituição historicamente sagrada, indissoluvelmente unida em nosso respeito á tradição do monumento. Foi o infante D. Henrique quem transformou o inhospito areal do Restello na linda freguezia de Belem, arroteando o solo, para refresco, abrigo e amparo espiritual dos navegantes, plantando arvores, dispondo hortas e pomares, abrindo fontes e construindo a primitiva ermida exactamente no mesmo logar em que se edificou a actual egreja. O pontifice Pio II confirmou por meio de uma bula a doação do infante á ordem de Christo, e instituiu em parochia a primeira egreja de Santa Maria de Belem, sem outro encargo para a ordem, para os navegantes e para o publico senão o de se rezar a cada missa, aos sabbados, um Pater e uma Ave Maria pela salvação da alma do infante D. Henrique e por a d'aquelles de quem era teudo. O rei D. Manoel, tendo edificado a sumptuosa egreja e o mosteiro dos Jeronymos, na volta da armada de Vasco da Gama, depois do descobrimento da India, colloca a estatua do infante á porta da egreja, mantem a parochia, e determina, em cumprimento dos piedosos desejos de D. Henrique, que a cada missa, ao lavar das mãos, o sacerdote se volva para a gente, e diga em alta voz. «Rogae a Deus pela alma do infante D. Henrique, primeiro fundador d'esta casa, e por a de el rei D. Manoel, que a doou á ordem de Christo.»
A data d'esta carta de doação é de 26 de dezembro de 1498.
Seria, a meu ver, uma infidelidade, uma ingratidão, e um torpe desacato remover a parochia de Santa Maria de Belem do logar em que seus gloriosos fundadores a estabeleceram, cabendo-nos pelo contrario o dever de reclamar dos poderes civis e dos poderes ecclesiasticos que o modesto voto dos fundadores se cumpra, como é de razão juridica e de probidade nacional, e que em cada missa conventual celebrada pelo parocho na egreja dos Jeronymos, o sacerdote se volte para o povo, ao lavabo, e peça um Pater e uma Ave Maria pela alma do infante D. Henrique e pela de el-rei D. Manoel.
Que se adopte porém ou se não adopte a proposta do sr. Luciano Cordeiro, o que technicamente não é de certo admissivel é que as obras dos Jeronymos se prosigam e se concluam sem resolução tomada ácerca do destino que ha de ter o edificio em que taes obras se fazem.

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