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«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella de quem lhe bate os pés.
«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.

«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a honra de uma nação.
«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No momento em que se [esqueceu] do que devia á sua dignidade de nós todos, que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei».

A SOCIEDADE ELEGANTE

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O MUNDO POLITICO

Novembro—1918.

«No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e pedinchona, só conhecia o caminho dos ministérios para ir importunar os secretarios de Estado com solicitações de empregos, de benesses, de estradas, de favores, até de escandalos. Não ia levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrança de um beneficio para o país. Ia procurar interesses, buscar comodidades, exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava, muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos á nação.
Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam em tôrno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que impuzera, contra os êrros de administração que imperiosamente reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os culpados de tudo—criminosos execrandos!—eram o Rei, os ministros, os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as rédeas da governação publica. Ella, a maioria exigente e dificil de contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos.
Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje se encolhem, transidos de pavor, e então barafustavam do alto do seu pedestal de mandões; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que sabia impôr-se com arrogancia—ella, de nada era culpada e escondia o rosto púdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!...
Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traição de muitos e a incompetencia de tantos. A maioria dos portugueses, se não delirou de contentamento, remeteu-se ao cómodo e discreto silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidadãos, para só os interromper com murmurios de reprovação, soprados nos centros de conversa contra os politicos... que ella empurrára para o mau caminho e ajudara a despenhar no precipicio.
Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga pança!...»

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