Teixeira de Sousa.
Maria I tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e endoidece; seu filho João VI que em seu nome governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por oficiaes inglezes.
D. Miguel foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do throno pela revolução triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe ficaram fieis.
Pedro IV, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso imperio indiano.
Maria II para se aguentar no throno chama marujos inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha liberal.
Pedro V não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.
Luiz I arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho Carlos. Este, esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no xão atirou com elle ao chão. Seu filho Manuel II que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.
Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas, barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe deve: uma divida colossal de oitocentos mil contos, nenhumas industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho: 365 contos por anno só para elle, mais 60 contos para a mamã, outros 60 para a vóvó e 16 para o titi; tem tambem para alfinetes 160 contos a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais 60 contos para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria e daremos 20 contos annuaes por cada pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo de Beja.
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Junho—1910.
Julho—1910.