Em caminho, pelas costas, á traição, um inspector enfiava-lhe um dos diademas de papel; até os olhos, quando era grande de mais; e peior ainda quando era pequeno, porque o misero laureado tinha de o aguentar em equilibrio até á bancada.
O publico batia palmas, talvez ao premio, talvez á sorte.
Ribas, o Matta Corcundinha, Nearcho, o Saulo das distincções e mais outro, alcançaram medalha de ouro. Romulo, Malheiro, Climaco, Sanches, Maurilio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e numerosissimos outros, a singela menção honrosa. Aos não contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça distribuida.
Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa sociedade, havia pessoas verdadeiramente notaveis: titulares de solida grandeza, argentarios de mais solidos titulos, vultos politicos de bella estampa e tradições sonoras, uns exhibindo á fronte as neves pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da camara temporaria, medicos celebrisados por façanhas cirurgicas, ou simplesmente pela vivisecção reciproca de mazellas em pleno logradouro publico dos «a pedidos».
Havia jornalistas, litteratos, pintores, compositores; entre as senhoras, accumuladas principalmente nas bancadas especiaes, distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a efflorescencia da formosura, que a claridade branda do logar vaporisava idealmente; havia ostentações de pedraria e vestuarios que impressionavam; havia juventudes de labios e de olhar enervantes ou arrebatadoras, morenas, forçando magicamente o torpor da sésta sensual sob a caricia oppressora de um pequenino pé victorioso, louras convidando a um enlace de transporte á nuvem, mais alto! ao retiro ethereo onde vivem amor as estrellas duplas... Nada d'isso era o grande attractivo, nada conseguia altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso grande cuidado era o poeta, «o poeta!» murmurava o collegio, uns á procura, outros indicando. Era aquelle de pé, mão ao quadril, vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas bandas, sobre as pessoas mais proximas, uma profusão assombrosa de suissas.
D'entre as suissas, como um gorgeio do bosque, saía um bello nariz alexandrino de dous hemistichios, artisticamente longo, disfarçando o cavallete da cesura, tal qual os da ultima moda no Parnaso. Á raiz do poetico appendice brilhavam dous olhos, vivissimos, redondos, de coruja, como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das orbitas cavas, que bem se percebia alli como deve brilhar o fundo na physionomia da estrophe. O grande Dr. Icaro de Nascimento! Vinha ao Atheneu exclusivamente para declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o successo obrigado das festas escolares do Rio: O mestre. Logo depois dos premios, teve a palavra.
Durante meia hora houve uma cousa estranha: uma convulsão angustiosa de barbas no espaço. Crescente. Desappareceu o poeta, desappareceu o palanque, encheu-se o amphitheatro, foi-se o throno com a Alteza Regente, a longa mesa com Aristarcho e o Ex.mo do imperio, ennovellaram-se as archibancadas, desappareceu tudo numa expansão incalculavel de suissas, jubileu de queixos. Ninguem mais se via, nada mais, no cahos tormentoso de pellos, onde uma voz passava atroadora, carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como patadas, esmagando, rompendo avante.
Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas. Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a poesia. Ninguem percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi formidavel.
Depois de uma parte de concerto, que foi como descanço reparador, seguiu-se a offerta do busto. Teve a palavra o professor Venancio.