Aristarcho, na grande mesa, soffreu o segundo abalo de terror d'aquella solemnidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso ás vezes tanta bravura para arrostar o encomio face a face, como as aggressões. A propria vaidade acovarda-se. Venancio ia falar: coragem! A oscillação do thuribulo póde fazer enjôo. Elle receiava uma cousa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio, immensamente. Mas o Venancio era de mais. E alli, diante d'aquelle mundo! Não importa! Viva o heroismo.

Era conveniente postar-se em attitude severa bastante e olympica, para corresponder á glorificação de Venancio. Prompto.

O orador accumulou paciente todos os epithetos de engrandecimento, desde o raro metal da sinceridade até o cobre ductil, cantante das adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas emphases, e sobre a massa bateu como um cyclope, longamente, até accentuar a imagem monumental do director.

Aristarcho depois do primeiro receio esquecia-se na delicia de uma metamorphose. Venancio era o seu esculptor.

A estatua não era mais uma aspiração; batiam-na alli. Elle sentia metallisar-se a carne á medida que o Venancio falava. Comprehendia inversamente o prazer de transmutação da materia bruta que a alma artistica penetra e anima; congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; á epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente massiço por dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas arterias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralisava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorganico, rochedo inerte, blóco metallico, escoria de fundição, fórma de bronze, vivendo a vida exterior das esculpturas, sem consciencia, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, gloria! mas feito estatua.

«Coroemol-o!» bradou de subito Venancio.

Neste momento, o Climaco estrategicamente postado, puxou com força um cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpreza: o busto da offerta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encommenda estilhaçar-se contra o metal novo.

—Coroemol-o! repetia Venancio, num vendaval de acclamações. E saccando da tribuna esplendida corôa de louros, que ninguem vira, collocou-a sobre a figura.

Aristarcho caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiastica de Venancio. Nada para elle das bellas apostrophes! Teve ciumes, O gozo da metamorphose fôra uma allucicação. O acclamado, o endeosado era o busto: elle continuava a ser o pobre Aristarcho, mortal, de carne e osso. O proprio Venancio, o fiel Venancio, abandonava-o. E por causa d'aquillo, d'aquella cousa mesquinha sobre a peanha, aquelle pedaço de Aristarcho, que nem ao menos era gente!

Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarcho levantar-se, atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a corôa de louros ao busto.