Affianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em superlativo a metaphora sabida das varas verdes. Notando a minha perturbação, o director desvaneceu-se em afagos. «Mas para os rapazes dignos eu sou um pae!... os máus eu conheço: não são as crianças, principalmente como você, o prazer da familia, e que ha de ser, estou certo, uma das glorias do Atheneu. Deixem estar... » Eu tomei a sério a prophecia e fiquei mais calmo.

Quando meu pae saiu, vieram-me lagrimas, que eu tolhi a tempo de ser forte. Subi ao salão azul, dormitorio dos medios, onde estava a minha cama; mudei de roupa, levei a farda ao numero do deposito geral, meu numero. Não tive coragem de affrontar o recreio. Via de longe os collegas, poucos áquella hora, passeando em grupos, conversando amigavelmente, sem animação, impressionados ainda pelas recordações de casa; hesitava em ir ter com elles, embaraçado da estréa das calças lanças, como um exaggero comico, e da sensação de nudez á nuca, que o córte recente dos cabellos desabrigara era escandalo. João Numa, inspector ou bedel, baixote, barrigudo, de oculos escuros, movendo-se com vivacidade de bacoro alegre, veio achar-me indeciso, á escada do pateo. «Não desce, a brincar?» perguntou bondosamente. «Vamos, desça, vá com os outros». O amavel bacoro tomou-me pela mão e descemos juntos.

O inspector deixou-me entre dous rapazinhos, que me trataram com sympathia.

Ás onze horas, a sineta deu o signal das aulas. Os meus bons companheiros, de classes atrazadas, indicaram a sala de ensino superior de primeiras letras, que devia ser a minha, e se despediram.

O professor Manlio, a quem eu fôra recommendado, recommendou-me por sua vez ao mais sério dos seus discipulos, o honrado Rebello. Rebello era o mais velho e tinha oculos escuros como João Numa. O vidro, curvo dos oculos cobria-lhe os olhos rigorosamente, monopolisando a attenção no interesse unico da mesa do professor. Como se fosse pouco, o zeloso estudante fazia concha com as mãos ás temporas, para impedir o contrabando evasivo de algum olhar escapado ao monopolio do vidro.

Este luxo de applicação não provinha do simples empenho de fazer attitude de exemplar. Rebello soffria da vista, tanto que muito tarde podera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com um sorriso benevolo de avô; afastou-se um pouco para me dar logar e esqueceu-me incontinente, para afundasse na devoradora attenção que era o seu apanagio.

Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de typos que me divertia. O Gualterio, miudo, redondo de costas, cabellos revoltos, motilidade brusca e caretas de simio—palhaço dos outros, como dizia o professor: o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma fouce; o Alvares, moreno, senho carregado, cabelleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e estupido, que Manlio atormentava, designando-o para o mister das plata-fórmas de bond, com a chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha, claro, translucido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava para ir á pedra com um vagar languido de convalescente; o Maurilio, nervoso, insoffrido, fortissimo em taboada: cinco vezes tres, vezes dous, noves fora, vezes sete?... lá estava Maurilio, tremulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fulgidos no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas accesas, labios inquietos, physionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado tres minutos, sempre á mesa do professor e sempre enxotado, debulhando um rizinho de pouca vergonha, fazendo agrados ao mestre, chamando-lhe bomzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Manlio repellia, precavido de confianças; Baptista Carlos, raça de bugre, valido, de má cara, coçando-se muito, como se o incommodasse a roupa no corpo, alheio ás cousas da aula, como se não tivesse nada com aquillo, espreitando apenas o professor para aproveitar as distracções e ferir a orelha aos vizinhos com uma setta de papel dobrado. Ás vezes a setta do bugre ricochetava até á mesa de Manlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquerito. Em vão, que os partistas temiam-no e elle era matreiro e sonso para disfarçar.

Dignos de nota havia ainda o Cruz, timido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar covarde de quem foi creado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina christã, facil como um despertador para desfechar as licções de cór, perro como uma cravelha para ceder uma idéa por conta propria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o venerando Rebello, primeiro da classe, muito intelligente, vencido apenas por Maurilio na especialidade dos noves fóra vezes tanto, cuidadoso dos exercicios, emulo do Cruz na doutrina, sem competidor na analyse, no desenho linear, na cosmographia.

O resto, uma cambadinha indistincta, adormentados nos ultimos bancos, confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.

Fui tambem recommendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipathico: cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, labios humidos, porejando baba, meiguice viscosa de crapula antigo. Era o primeiro da aula. Primeiro que fosse do côro dos anjos, no meu conceito era a derradeira das creaturas.