Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou o meu nome. Fiquei tão pallido que Manlio sorriu e perguntou-me brando, se queria ir á pedra. Precisava examinar-me.
De pé, vexadissimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça de vertigem. Adivinhei sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar odioso e timorato do Cruz, os oculos azues do Rebello, o nariz do Nascimento, virando de vagar como um leme; esperei a setta do Carlos, o quinau do Maurilio, ameaçador, fazendo cócegas ao tecto, com o dedo feroz; respirei no ambiente adversa de maldita hora, perfumado pela emanação acre das resinas do arvoredo proximo, uma conspiração contra mim da aula inteira, desde as bajulações de Negrão até á maldade violenta do Alvares. Cambaleei até á pedra, O professor interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-se-me do espirito um pavor estranho. Acovardou-me o terror supremo das exhibições, imaginando em roda a ironia má de todos aquelles rostos desconhecidos. Amparei-me á taboa negra, para não cair; fugia-me o sólo aos pés, com a noção do momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna! liquidando-se a ultima energia... pela melhor das maneiras peiores de liquidar-se uma energia.
Do que se passou depois, não tenho idéa. A perturbação levou-me a consciencia das cousas. Lembro-me que me achei com o Rebello, na rouparia, e o Rebello animava-me com um esforço de bondade sincero e commovedor.
Rebello retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu desastre, emquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a considerar a differença d'aquella situação para o ideal de cavallaria com que sonhara assombrar o Atheneu.
Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que alli estava á mesa dos assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso folheto, versos e estampas... Fechei-o convulsamente com o arrependimento de uma curiosidade perversa. Estranho folheto! Abri-o de novo. Ardia-me á face inexplicavel incendio de pudor, constringia-me a garganta exquisito aperto, de nausea. Escravisava-me, porém, a seducção da novidade. Olhei para os lados com um gesto de culpado; não sei que instincto me acordava um sobresalto de remorso. Um simples papel, entretanto, borrado na tiragem rapida dos delictos de imprensa. Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. «Larga d'ahi! disse com brutalidade, isso não é p'ra menino!» E retirou o livrinho.
Esta impressão viva de surpreza curou-me da lembrança do meu triste episodio, crescendo-me na imaginação como as visões, absorvendo-me as idéas. Zumbia-me aos ouvidos a palavra aterrada de Aristarcho... Sim, devia ser isto: um entravamento obscuro de fórmas despidas, roupas abertas, um turbilhão de frades bebados, deslocados ao capricho de todas as deformidades de um monstruoso desenho, tocando-se, saltando a sarabanda diabolica sem fim, no empastado negrume da tinta do prelo; aqui e alli, o raio branco de uma falha, fulminando o espectaculo e a gravura, como o estigma complementar do acaso.
A rouparia occupava grande parte do sub-chão do immenso edificio, entre o vigamento do soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada aos lavatorios, centenas de bacias, ao longo das paredes e pouco acima num friso de madeira os copos e as escovas de dentes. Terceiro compartimento, além d'estes, accommodava o arsenal dos apparelhos gymnasticos e o dormitorio da criadagem. Da rouparia para o recreio central atravessava-se obliguamente o saguão das bacias. Logo a sair ao pateo encontrei o benevolo Rebello, que me esperava. Insistiu com um requinte importuno de complacencia sobre o meu incidente, desculpando-me, explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insupportavel. Para mudar de conversa, pedi informações acerca do nosso professor. Deu-m'as optimas, nem outras daria um alumno exemplar como elle. Nenhum mestre é máu para o bom discipulo, affirmava uma das maximas da parede.
Era hora de descanço; passeavamos, conversando. Falamos dos collegas. Vi então, de dentro da brandura patriarchal do Rebello descascar-se uma especie de inesperado Thersito, produzindo injurias e maldições. «Uma cafila! uma corja! Não imagina, meu caro Sergio. Conte como uma desgraça ter de viver com esta gente ». E esbeiçou um labio sarcastico para os rapazes que passavam. «Ah! vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais peccados na consciencia que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vicio em cada pollegada de pelle. Fiem-se nelles. São servis, traidores, brutaes, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos... Socios de bandalheira! Fuja d'elles, fuja d'elles. Cheiram a corrupção, empestam de longe. Corja de hypocritas! Immoraes! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da vespera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com elles mesmos ha de aprender o que são... Aquelle é o Malheiro, um grande em gymnastica. Entrou graudo, trazendo para cá os bons costumes de quanto collegio por ahi. O pae é official. Cresceu num quartel no meio da chacota das praças. Forte como um touro, todos o temem, muitos o cercam, os inspectores não podem com elle; o director respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos... Este que passou por nós, olhando muito, é o Candido, com aquelles modos de mulher, aquelle arzinho de quem saiu da cama, com preguiça nos olhos... Este sujeito... Ha de ser seu conhecido. Mas faço excepções: alli vem o Ribas, está vendo? feio, coitadinho! como tudo, mas uma pérola; É a mansidão em pessoa. Primeira voz do Orpheon, uma vozinha de moça que o director adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como os seraphins. Uma perola!»
—Alli está um de joelhos...