—De joelhos... Não ha perguntar; é o Franco. Uma alma penada. Hoje é o primeiro dia, alli está de joelhos o Franco. Assim atravessa as semanas, os mezes, assim o conheço, nesta casa, desde que entrei. De joelhos como um penitente expiando a culpa de uma raça. O director chama-lhe cão, diz que tem callos na cara. Se não tivesse callos no joelho, não haveria canto do Atheneu que elle não marcasse com o sangue de uma penitencia. O pae é de Matto-Grosso; mandou-o para aqui com uma carta em que o recommendava como incorrigivel, pedindo severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um caixeiro que faz os pagamentos e deixa lembranças. Não sáe nunca... Afastemo-nos que ahi vem um grupo de gaiatos.

Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com surriadas.

«Viu aquelle da frente, que gritou calouro? Se eu dissesse o que se conta d'elle... aquelles olhinhos humidos de Senhora das Dôres... Olhe; um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.

«Isto é uma multidão; é preciso força de cotovellos para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo só e vejo vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não póde imaginar. Os genios fazem aqui dous sexos, como se fosse uma escola mixta. Os rapazes timidos, ingenuos, sem sangue, são brandamente impellidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o collegio é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e affectuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu amigo! Comece por não admittir protectores.»

Ia por diante Rebello com os extraordinarios avisos, quando senti puxarem-me a blusa. Quasi caí. Voltei-me; vi á distancia uma cara amarella, de gordura balofa, olhos vesgos sem pestanas, virada para mim, esgarçando a bocca em careta de riso cynico. Um sujeito evidentemente mais forte do que eu. Não obstante apanhei com raiva um pedaço de telha e arremessei. O tratante livrou-se, injuriando-me com uma gargalhada, e sumiu-se. «Muito bem», applaudiu Rebello. E á pergunta que fiz, informou: aquelle desagradavel rapaz era o Barbalho, que havia de ser um dia preso como gatuno de joias, nosso companheiro da aula primaria, do numero dos esquecidos nos bancos do fundo.

O professor Manlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para salvar-me das consequencias do escarneo do desastrado incidente da primeira aula, obsequiou-me na seguinte com as melhores palavras de animação. Os rapazes foram generosos. Maurilio acariciou-me a cabeça mimosamente, provando que sabia ser bom o dedinho implacavel dos argumentos. Só o amarello dos olhos vesgos teimava em fazer gaifonas á socapa.

Depois do jantar não tornei a vêr o Rebello. Como frequentava algumas aulas extraordinarias do curso superior, recolhia-se a certas horas para as salas de cima.

A sala do professor Manlio era ao nivel do pateo, em pavilhão independente do edificio principal, com duas outras do curso primario, o alojamento da banda de musica e o salão supplementar de recreio, vantajoso em dias de chuva. Formando angulo recto com esta casa, uma extensa construcção de tijolo e taboas pintadas, sala geral do estudo no pavimento terreo e dormitorio em cima, concorria para fechar metade do quadrilatero do pateo, que o grande edificio completava, estentendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa. No fundo d'esta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro, esteril, insipido como a alegria obrigatoria, algumas arvores de cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa, com o verdor morto das palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade precoce dos ramos que soffrem, como se não coubesse a vegetação no internato; a um canto, esgalgado cypreste subia até as gotteiras, tentando fugir pelos telhados.