Sem o Rebello, achei-me ahi como perdido, em meio dos rapazes. Os conhecidos da aula desappareciam no tumulto que as salas todas despejavam.
Nem um só de quem me podesse aproximar. Rente com a parede, para que me não dessem attenção, insinuei-me até o logar d'onde o inspector Sylvino, um grande magro, de avultado nariz e suissas dilaceradas, olhar miudo e vivo como chispas, em orbitas de antro, fiscalisava o recreio, graduando a folgança, á mercê de um temivel canhenho. Sentava-se á entrada do portão do lavatorio. Um pouco além da cadeira do Sylvino, fiquei a salvo. Do seguro retiro avistava, no terreiro, fresco das largas sombras da hora, o movimento dos collegas.
Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente a dispersão dos alumnos. Eram os pobres novatos que os veteranos sovavam á cacholeta, fraternalmente.
Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitencia; em pé, cara contra a parede. Como Sylvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas para arrancar a cabeça e vêr morrer o bichinho na palma da mão. Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de máu modo: «Lá sei! disse elle. Porque me mandaram.» E continuou a pegar as moscas. Franco era um rapazola de quatorze annos, rachitico, de olhos pasmados, face livida, palpebras pisadas. Á fronte, com a expressão vaga dos olhos e obliquidade dolorida dos supercilios, pousava-lhe uma nevoa de afflicção e paciencia, como se vê no Flos sanctorum. A parte inferior do semblante rebellava-se; um canto dos labios franzia-se em contracção constante de odiento desprezo. Franco não ria nunca. Sorria apenas, assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo desenlace como um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam. Uma quéda alegrava-o, principalmente perigosa. Vivia isolado no circulo da excomunhão com que o diretor, invariavelmente, o fulminava todas as manhãs, lendo no refeitorio perante o collegio as notas da vespera.
Os professores já sabiam. Á nota do Franco, sempre má, devia seguir-se especial commentario deprimente, que a opinião esperava e ouvia com delicia, fartando-se de desprezar. Nenhum de nós como elle! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anathema. Não convinha expulsar. Uma cousa d'estas aproveita-se como um bibelot do ensino intuitivo, explora-se como a miseria do ilota, para a licção fecunda do asco. A propria indifferença repugnante da victima é util.
Tres annos havia que o infeliz, num supplicio de pequeninas humilhações crueis, agachado, abatido, esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das proprias culpas, alli estava,—cariatide forçada no edificio de moralisação do Atheneu, exemplar perfeito de depravação offerecido ao horror santo dos puros.
Varias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de subito em frente, e, revestindo-se de quanta seriedade lhe era susceptivel o açafrão da cara, perguntava: «Mudou as calças? Um inferno. Até que afinal, o meu desespero estourou.
Foi á noite, pouco antes da ceia. Estavamos a um canto mal illuminado do pateo, quasi sós. O biltre reconheceu-me e arreganhou uma inexprimivel interjeição de mofa. Não esperei por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois, rolavamos na poeira engalfinhados como feras. Uma lucta rapida. Avisaram-nos que vinha o Sylvino. Barbalho evadiu-se. Eu verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz.
Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da tristeza de hospital dos dormitorios, fundos na sombra do gaz mortiço, trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do meu dia.