Era assim o collegio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?

Onde metter a machina dos meus ideaes naquelle mundo de brutalidade, que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando á investigação da minha inexperiencia? Qual o meu destino, naquella sociedade que o Rebello descrevera horrorisado, com as meias phrases de mysterio, suscitando temores indefinidos, recommendando energia, como se colleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a norma generosa e sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz do Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes o nobre aspecto da solemnidade dos premios, dando-me idéa da legião dos soldados do trabalho, que fraternisavam no empenho commum, unidos pelo coração e pela vantagem do collectivo esforço. Individualisados na debandada do receio, com as observações ainda mais da critica do Rebello, bem diverso sentimento inspiravam-me, A reacção do contraste induzia-me a um conceito de repugnancia que o habito havia de esmorecer, que me tirava lagrimas áquella noite. Ao mesmo tempo opprimia-me o presentimento da solidão moral, fazendo adivinhar que as preoccupações minimas e as concomitantes surpresas inconfessaveis dariam pouco para as e effusões de allivio, a que corresponde o conselho, a consolação.

Nada de protector, dissera Rebello, Era o ermo. E, na solidão, conspiradas, as adversidades de toda a especie, falsidade traiçoeira dos affectos, perseguição da malevolencia, espionagem da vigilancia; por cima de tudo, céu de trovões sobre os desalentos, a furia tonante de Jupiter-director, o tremendo Aristarcho dos momentos graves.

Lembranças da familia desviaram-me o curso ás reflexões. Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro somno, nem a oração, tão longe nesse momento, que me protegia á noite como um docel de amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asylos da miseria recolhem.

A convicção do meu triste infortunio lentamente, suavemente, anniquilou-me num conforto de prostração e eu dormi.

Pela noite a dentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens varias do atribulado dia; a pegajosa ternura do Sanches, a cara amarella do Barbalho, a expressão de tortura do Franco, os frades descompostos do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era o Franco. A minha aula, o collegio inteiro, mil collegios, arrebatados, num pé de vento, voavam leguas a fóra por uma planicie sem termo. Gritavam todos, urravam a sabbatina de taboadas com um enthusiasmo de turbilhão. O pó crescia em nuvens do sólo; a massa confusa ouriçava-se de gestos, gestos de galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a floresta dos braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão magra do Maurilio, crescida, enorme, preta, torcendo, destorcendo os dedos sofregos, convulsionados da hysteria do quinau... E eu caía, unico vencido! E o tropel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! sopeavam-me, calcavam-me, pesados, carregando premios, premios aos cestos!

A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angustia. Cinco horas da manhã.

[III]

Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudencia, emquanto applicavam-se os outros á peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos autobiographicos, para a opportuna confecção de mais uma infancia celebre, certo não registraria, entre os meus episodios de predestinado, o caso banal da natação, de consequencias, entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.

Natação chamava-se o banheiro, construido num terreno das dependencias do Atheneu, vasta toalha d'agua ao rez de terra, trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre. O fundo, invisivel, de ladrilho, offerecia uma inclinação, baixando gradualmente de um extremo para outro. Accusava-se ainda mais esta differença de profundidade por dois degráus convenientemente dispostos para que tomassem pé as crianças como os rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a agua cobria um homem.