Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa, levando a familia. Eu ficara no Atheneu, confiado ao director, como a um correspondente.

Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o Atheneu deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um lagarto. Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas com alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.

Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.

Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros, começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse de chumbo.

Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.

A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral, com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as outras peças.

A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de delirio, como uma irmã de caridade.

Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca. Fôra-lhe prohibida a entrada.

Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú, que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como uma sombra por um chão de paina.

Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em um ninho.