Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre. Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos, gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira. Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha, alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se, insensivelmente, evaporava-se.
Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa, ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final, sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer; fórma sem materia, turba de espiritos aereos.
A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra. Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro; depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia, a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas, que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço! Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve enlace; tocava-me com o quadril em descanço.
Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura, inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.
Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para aquella inercia intensa, avassallando.
Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a situação. A convalescença progredia; era um desgosto.
No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma, uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto olhar.
O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana. Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria, reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das alturas a crepitação das estrellas ardendo.
Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo, entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada. O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho, pelas paredes.
Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.