Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.
Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.
«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade. Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza afrouxa.
Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o! salvar o naufrago do tempo.
Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das acções.
Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não mentir é simples.
... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre os ricos.
A agitação não me faz bem.
Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se, desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que foge.
Dou-te a minha benção...»