A frente do Atheneu apresentava o aspecto mais terrivel. De varios pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.
Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio, como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio, com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.
O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo. Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos profissionaes do esguicho.
No sinistro do Atheneu a cousa foi evidente. Depois das bombas, a violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto. Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros, como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis, precipitando-se no sumidouro.
No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.
«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!—Dizem que foi proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras do estabelecimento e do luxo do director.
A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa desolação.
Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos. Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.
Acceitava o rigor da sorte.
Et comme il voit en nous des âmes peu communes
Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.