Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera. Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo. Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção continua de muitas idades de ruina.

Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes, apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.

Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do attentado.

Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.

Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho, tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho carregado.

Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora. Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao monopolio da magoa. O Atheneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um homem aquillo; era um de profundis.

Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras, queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia, gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas, espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...

Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.

Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a occasião passageira dos factos, mas sobretudo—o funeral para sempre das horas.