Encarnei o peccado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no intimo o ambicioso interesse de um dia reformar os homens com o meu exemplo pontifical de virtudes no solio de Roma; mas a verdade é que me dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer essa exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal scenographico de trabalho, e fraternidade, que eu quizera que fosse a escola, tinha que soltar para outras bandas os pombos da imaginação. Viveiro seguro era o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se não contava.
Accresce que predispunha ao enlevo a tristeza oppressa de discipulo máu em que eu jazia. E como nos pequenos esforços que tentava para me reerguer ninguem dava attenção, deixei-me ficar insensivel, resignado, como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciencia em paz, a consciencia que é o espectaculo de Deus. Servia-me a crença como um colchão brando de malandrice consoladora. Note-se de passagem que apezar dos anceios de bemaventurança, eu ia mal no catecismo como no resto.
A mais terrivel das instituições do Atheneu não era a famosa justiça do arbitrio, não era ainda a cafua, asylo das trevas e do soluço, sancção das culpas enormes. Era o Livro das notas.
Todas as manhãs, infallivelmente, perante o collegio em peso, congregado para o primeiro almoço, ás oito horas, o director apparecia a uma porta, com a solemnidade tarda das apparições, e abria o memorial das partes.
Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rotulo vermelho na capa, angulos do mesmo sangue. Na vespera cada professor, na ordem do horario, deixava alli a observação relativa á diligencia dos seus discipulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, como as sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia, avultava, impunha-se a opinião do Atheneu. Rainha caprichosa e incerta, tyrannisava essa opinião sem correctivo como os tribunaes supremos. O temivel noticiario, redigido ao sabor da justiça suspeita de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos, immoraes, erigia-se em censura irremissivel de reputações. O julgador podia ser posto fóra por uma evidenciação concludente dos seus defeitos; a diffamação estampada era irrevogavel.
E peior é que lavrava o contagio da convicção e surprehendia-se cada um consecutivamente de não haver reparado que era mesmo tão ordinario tal discipulo, tal collega, reforçando-se passivamente o conceito, até consummar-se a obra de vilipendio quando, por ultimo, o condemnado, sem mais uma suggestão de revolta achava aquillo justo e baixava a cabeça. A opinião é um adversario infernal que conta com a cumplicidade, emfim, da propria victima.
Com excepção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os que dormiam á sombra de uma reputação habilmente arranjada por um justo conchavo de trabalho e captivante doçura, havia para todos uma espectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um mysterio.
Á medida que se desenrolava a gazetilha, as ancias iam serenando. Os victimados fugiam, acabrunhados de vergonha, opprimidos sob o castigo incalculavel de trezentas carinhas de ironia superior ou compaixão de ultraje. Passavam junto de Aristarcho ao sair para a tarefa penal de escripta. O director, arrepiando uma das coleras olympicas que de um momento para outro sabia fabricar, descarregava com o livro ás costas do condemnado, aggravante do injuria e escarneo á pena de diffamação. O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.
Quando a cousa não dava para coleras, Aristarcho limitava-se a sublinhar com uma ponderação qualquer a sentença cathedratica; ora uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, ora um insulto vivo e breve, ora um conselho amortalhado em funebre dó.