Ás vezes enlaçava com dous dedos o menino pela nuca e o voltava, tremente e submisso, para o collegio attento, offerecendo-o ás bofetadas da opinião: «Vejam esta cara!...»
A criança, livida, fechava os olhos.
Em compensação, não havia expressamente punições corporaes.
O professor Manlio, sempre considerando a recommendação, poupou-me longamente ao castigo formidavel das partes. Perdeu por fim a paciencia e fulminou-me.
No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem assucar que me bastasse, o resto do café quinado da espectativa (porque Manlio tinha-me prevenido), quando ouvi Aristarcho, alargando pausas dramaticas de commoção, ler, claro, severo: «O Sr. Sergio tem degenerado...»
Eu havia figurado já na gazetilha do Atheneu com algumas notas de louvor; guardou-se a sensação para a nota má. O director olhou-me sombrio.
No fundo do silencio commum do refeitorio, cavou-se um silencio mais fundo, como um poço depois de um abysmo. Senti-me devorado por este silencio hiante. A congregação justiceira dos collegas voltou-se para mim, contra mim. Os vizinhos de logar á mesa affastaram-se dos dois lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um ruido argentino, horrivel, de colheres á lavagem; os tamarineiros no parque ciciavam ao vento.
Aristarcho foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.
A peior hypothese do systema do pelourinho era quando o estudante ganhava o callo da habitualidade, um assassinato do pudor, como succedia com o Franco.
Dias depois da terrivel nota, voltava eu a figurar com outra má, menos philosophicamente redigida, porém aggravada de reincidencia. Aristarcho não perdoou mais. Houve ainda terceira, quarta, por diante. Cada uma d'ellas doia-me intensamente; comtudo não me indignavam. Aquelle soffrimento eu o desejava, na humildade devota da minha disposição actual. Chorava á noite, em segredo, no dormitorio; mas colhia as lagrimas numa taça, como fazem os martyres das estampas bentas, e offerecia ao céu, em remissão dos meus pobres peccados, com as notas más boiando.