Era boa a priminha. Mais velha do que eu tres annos, carinhosa, maternal commigo. Brincava pouco, velava pelos irmãos, pela ordem da casa, como uma senhora. Tinha os olhos grandes, grandes, que pareciam crescer ainda quando fitavam, negros, animados de um movimento suave de nuvem sobre céu macio; o semblante claro, branco, puro, de marmorea pureza, coando uma transparencia de sangue a cada face. Raro falava; desconhecia a agitação, ignorava a impaciencia. Sabia talvez que ia morrer. Ao vêl-a passar, sem rumor, como os espectros femininos do sonhador americano—leve na terra como o roçar da veste de um anjo, sentia-se com aperto de coração que não pertencia ao mundo aquella criança: buscava, errante na vida, buscava apenas o repouso da fórma, sob a campa, em sitio calmo, de muito sol, onde chorassem as rosas pela manhã—e a liberdade etherea do sentimento.
Um dia, não sei se do pranto que tinha nos olhos, vi animar-se o rosto á pequenina gravura. Eu pensava na prima; descobri na imagem uma identidade commovente de traços physionomicos com a pequenina morta. Guardei então, como um retrato, Santa Rosalia.
Com a evolução de mysticismo era natural completar-se a consagração da estampa; canonisada triumphalmente no concilio ecumenico dos meus mais intimos votos.
Era a sala geral do estudo, á beira do pateo central, uma peça incommensuravel, muito mais extensa do que larga. De uma das extremidades, quem não tivesse extraordinaria vista custaria a reconhecer outra pessoa na extremidade opposta. A um lado, encarreiravam-se quatro ordens de carteiras de páu envernisado e os bancos. Á parede, em frente, perfilavam-se grandes armarios de portas numeradas, correspondentes a compartimentos fundos; deposito de livros. Livros é o que menos se guardava em muitos compartimentos. O dono pregava um cadeado á portinha e formava um interior á vontade. Uns, os futuros sportmen, criavam ratinhos, cuidadosamente desdentados a tesoura, que se atrellavam a pequenos carros de papelão; outros, os politicos futuros, criavam cameleões e lagartixas, declarando-se-lhes precoce a propensão pelo viver de rastos e pela cambiante das pelles; outros, entomologistas, enchiam de casulos dormentes a estante e vinham espiar a efflorescencia das borboletas; os colleccionadores, Ladislaus Nettos um dia, fingiam museus mineralogicos, museus botanicos, onde abundavam as delicadas rendas seccas de filamentos das folhas descamadas; outros davam-se á zoologia e tinham caveiras de passarinhos, ovos vasados, cobras em cachaça. Um d'estes ultimos soffreu uma decepção. Guardava preciosamente o craneo de não sei que phenomenal quadrupede encontrado em excavações de uma horta, quando verificou-se que era uma carcassa de gallinha!
Eu tive idéa de armar em capella o compartimento do meu numero. Havia compartimentos enfeitados de chromos e desenhos; o meu seria um bosque de flôres, e eu acharia uma lampada minuscula para conservar lá dentro accesa. Ao fundo, em dourado passe-partout alojaria Santa Rosalia, a padroeira.
O projecto caiu pela difficuldade das flôres. Pagando a um criado, mal conseguia um bogari, um botão qualquer por dia. Tive de accommodar a gravura na gaveta do movel que possuiamos ao dormitorio, perto da cama, para as escovas e os pentes.
E todos os dias, sobre o papel, testemunho de assidua veneração, depositava uma flôr, mantendo na gaveta o clima tepido dos meus fervores, symbolisados num tributo de perfume.
Quando, no dia primeiro, sorriram as rosas mysticas de Maio, saudei-as enternecido do alto das janellas do salão azul, como as mensageiras do amor de Maria.
Iam começar os hymnos pela manhã no oratorio do Atheneu. Abençoados momentos de contricção e ternura, em que á disposição venturosa do corpo, depois do banho, vivia um pouco o recolhimento da poesia christã, no magnifico salão, guardando ainda, como os vapores matinaes das escarpas, as ultimas sombras da noite por entre os crespos do estuque.