O sol vinha tambem á capella e collava de fóra a fronte ás vidraças, brando ainda do despertar recente, fresco da toilette da aurora, com medo de entrar, corado da vergonha de não rezar, pobre astro atheu. Pelas janellas abertas, esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de jasmineiro, como uma invasão de floresta; e os jasmins da vespera, cançados, debulhavam-se em conchinhas de nacar pelo soalho, mortos, expirando no ambiente a alma livre do aroma.
Nós, ajoelhados, resentidos da influencia moral do scenario, oravamos sinceramente. Não havia muito mal a colher nos corações daquella mocidade, naquelle instante, repousando na tregoa da oração das miseriazinhas da hora commum.
Eu não olhava para o altar. Lá estava rica, no throno illuminado, sobre tres ordens de palmas, a imagem da Senhora da Conceição Immaculada, alteando á fronte a corôa de prata, onde engastavam pedraria os reflexos das luzes. A minha contricção, o meu canto pertenciam a Santa Rosalia, ao querido, cartão singelo que eu trazia dentro da blusa de brim, que comprimia ao peito com a mão, exacerbando o extase da fé pelo magnetismo do santo contacto.
O mez de Maio foi a culminação do periodo anagogico de crença. Coincidiu com essa época levarem-no ao leito os incommodos de meu pae, impedindo-lhe ás visitas do costume ao Atheneu. Eu pensava nos seus soffrimentos, e era isto mais um thema para as variações do mysticismo.
A neblina de melancolia, baixada sobre o collegio da altura da cordilheira, repercussão da tristeza verde das mattas, pesava-me aos hombros como a loba de um seminarista, como o voto de um frade; eu passeava na circumscripção do recreio como num claustro, olhando as paredes, brancas como tumulos caiados, limitando as preoccupações do espirito á minha humilhação diante de Deus, sem olhar para cima, na modestia curvada dos brutos—annullando-me a mim mesmo na angustia do pensamento religioso, como no sacco de panno bicudo, preto, do farricoco.
O céu, que a imaginação buscara d'antes, como os canticos buscam os zimborios, caía agora sobre mim como um solideo de bronze.
Triste e feliz.
Ninguem sabia dos sonhos e attribuiam á excentricidade o meu amor á solidão e ao socego.
Durante o hymno do anjo da guarda, no recreio abrigado, ao meio-dia, os estudantes, afogueados e transpirando ainda dos folguedos, paletós empapuçados sobre a cinta de couro, cabellos revoltos, não tomavam o rito a sério, e era a dureza dos vigilantes que os constrangia ao respeito d'aquelles dez minutos de religião. Só o Ribas e eu... e se não diminuiam as afllicções da terra e os nossos apertos, não é que o não pedissemos ao Anjo...