Cantavamos a primeira estrophe (o Ribas marcava o diapasão) e as seguintes, até á ultima, que acabavam todas por uma longa nota esfusiada em foguete, cantavamos com um esforço de adoração que bem compensaria, em caso de balanço, a leviandade irreverente de todos os collegas.

O diapasão do Ribas era ama deliciosa nota, tratada a pastilhas, guardada a cache-nez nos dias frios, furto sem duvida ao thesouro de gorgeios de algum sabiá descuidado. Aristarcho adorava esta nota. As vezes, na aula de musica chamava o Ribas e pedia-lhe aquella, aquella... a do hymno...

Ribas candidamente, por agradar ao director, punha de fóra a mimosa nota, como uma balinha de parto, côr de ambar, na ponta da lingua. Ao meio-dia era o momento. Ribas volvia os olhos e deixava partir, primeiro que todos, o precioso som. O collegio entoava depois, e as vozes iam todas, as nossas, em perseguição da primeira. Baldado esforço; que a do Ribas recolhia-se aos córos celestiaes, festejada na cordialidade fraternal dos harmonicos, ao passo que as nossas, desenganadas, voltavam da investida num retrocesso icario, desmembradas, desengonçadas, espaços a baixo como um bando de garças tontas. A distancia, o conjuncto podia passar por um cantico.

Uma hora de oração que aborrecia era a da noite, antes do recolher.

O movimento do dia sobrecarregava-nos com uma reacção irresistivel de fadiga. O somno chumbava-nos as pestanas como linhas de tarrafa. O harmonium da capella, dedilhado pelo Sampaio, hoje medico parteiro, e applicado a extrahir vagidos como outr'ora extrahia os accordes—produzia vagarosamente roncos de somneira da sésta de um tigre, fungados sonoros da digestão dormida de um abbade. Alguns meninos cantavam cabeceando, desmaiando a voz em vastos bocejos. Nas primeiras linhas, dos pequenos, estavam muitos de olhos fechados, bem longe dos cuidados da prece. Eu gozava o prazer da mortificação, sustendo-me fervoroso durante a reza nocturna.

Para isso, levava no bolso um punhado de pedrinhas, com que formava no soalho um genuflexorio despertador, fitando arregaladamente os olhos, ardidos de somno, na lingueta tiritante do fogo das velas...

Alludi varias vezes ao revestimento exterior de divindade com que se apresentava habitualmente Aristarcho.

Era um manto transparente, da natureza d'aquelle tecido leve de brisas trançadas de Gautier, manto sobrenatural que Aristarcho passava aos hombros, revelando do estofo nada mais que o predicado de majestade, geralmente estranho á industria pouco abstracta dos tecelões e á trama concreta das lançadeiras.

Ninguem conseguiria tocar com o dedo a mysteriosa purpura. Sentia-se, porém, o influxo da realeza impalpavel.

Assim é que um simples olhar do director immobilisava o collegio fulminantemente, como se levasse no brilho ameaças de todo um despotismo cruento.