Apenas desappareceu o criminoso, o collegio inteiro assaltou a escada, desejosos de vêr o assassinado. Á porta do refeitorio, porém, Aristarcho despachou: «não têm que ver!» Ao mesmo tempo a sineta importuna badalava chamando á forma. O professor Bataillard, de branco, no cinturão vermelho, appareceu ao lado do director. Os rapazes morderam-se de raiva. E não houve nunca no mundo dous superiores mais odiados.

Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes acharam meio de se esgueirar até á copa, e eu tambem com elles.

Desde muito, andava querendo ver um cadaver, espectaculo real, de mãos contrahidas, revirados beiços. As carias iconographicas de parede deixavam-me impassivel, com as estampas theoricas de cerebros a descoberto, globos oculares exorbitados, ventres golpeados em abas, mostrando visceras, figuras humanas de pé, descançando a um quadril, movendo a supinação num geito de complacencia passiva, esfolados para que lhes vissemos as veias, modelos vivos da sciencia em pose de supplicio, constancias de brahmane, como á espera que houvéssemos aprendido de cór a circumvolução do sangue, para vestir de novo a pelle e os musculos deslocados. Não me bastava.

Nos grandes armarios havia melhor: peças anatomicas de massa, sangrando verniz vermelho, legitima hemorrhagia; corações enormes, latejantes, humidos á vista, mas que se destampavam como terrinas; olhos de cyclope, arrancados, que pareciam viver ainda estranhamente a vida solitaria e inutil da visão; mas olhos que se abriam como fôrmas de projectis de entrudo. Mas eu queria a realidade, a morte ao vivo.

Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas no caixão agaloado, simples carinha amarellenta, sombreada de azul em nodoas dispersas, em mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flôres a immobilidade do ultimo somno. Vira ainda uma velha, na eça elevada, uma opulenta velha que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto de cêra côr de mel, inconsolaveis, espichando compridas chammas, que pareciam subir ao tecto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os dous pés para dentro, em botinas de panno; e o nariz pronunciando-se sob o lenço de rendas.

Isto não era ter visto cadaver. Eu queria o cadaver flagrante, despido dos artificios de armação e religiosidade, que fazem do defunto simples pretexto para um cerimonial de apparato. O que me convinha era o galho por terra, ao capricho da quéda, decepado da arvore da existencia, tal qual.

O cadaver do criado estava em condições; com a vantagem do adereço dramatico do sangue e do crime, como nos theatros.

Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações fortes, abalando-me certo modo de agradavel pavor. A cozinha do Atheneu, além dos alojamentos da copa, era espaçosa como um salão. Ás paredes scintillava o trem completo de cobre areiado, em linha as peças redondas como uma galeria de broqueis. No centro uma comprida mesa servia de refeitorio á criadagem.

Naquella occasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a autoridade e tratava de remover o morto. Aquella gente toda devia ser, de costas, a autoridade policial, feição do poder publico que eu não discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído ao soalho, vi o cadaver sobre uma esteira de sangue.