Quando foram em auxilio, já o Bento Alves desarmara o adversario, coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.

De toda parte, acclamavam-no heróe. Á janella, de longe, Aristarcho, enthusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de vento, sem conseguir dar voz á emoção.

Bento Alves retirou-se com a faca em trophéu, deixando o criminoso sob uma pilha de valentes da ultima hora e criados que o suffocavam.

Quando o pobre diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de mil maneiras por cintas de couro, como as mumias no envoltorio de tiras, acercou-se d'elle o Sylyino e o aggrediu covardemente com um sermão de moral.

Era criminoso dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o collegio inteiro o sabia.

O homem da faca era um dos jardineiros do Atheneu. Durante o jantar enfrentara-se de razões com um criado da casa de Aristarcho e o matara. Havia algum tempo que disputavam os dous a primazia no coração de Angela; uma terrivel pendencia. O criado de Aristarcho julgava-se na legitima posse d'esse escrinio de affectos, pela convivencia ao lado da bella, consorciados maritalmente na intimidade dos alguidares, onde as mãos se confundiam como as louças ou na sociedade affectuosa do serviço dos aposentos do director e da senhora, permutando entre si dichotes assucarados, á flagellação dos tapetes.

O jardineiro, patricio da camareira, dava por si a razão de nacionalidade, o facto de haverem chegado á America na mesma turma de immigrantes e uma autoação completa de juramentos idoneos da seductora.

Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatara; cortam-se. O jardineiro cortou. Por mór azedume da situação, dizem que Angela de parte a parte estimulava os adversarios declarando a cada um por sua vez preferil-o exclusivamente.

Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a victima o objecto das attenções.

Era este um rapagão de trinta annos, pardo e sympathico. O assassino era mais escuro, especie de andaluz de touradas, baixo, solido, grosso como um cepo de açougue.