O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da esthetica, no gozo visual das linhas da formosura, na delicia auditiva de uma expressão inarticulada, que fosse emittida com expressão, na commoção de um contacto, na aspiração inebriante do aroma indefinido da carne. A obra d'arte do amor é a prole; o instrumento é o desejo.
Depois da arte primitiva e fundamental do tacto, a arte do ouvido. A obra de arte é a phrase sentida, habil para produzir emoção; o instrumento é a linguagem.
Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloquencia propriamente e poesia popular, graças á aproximação hybrida de terceira arte, do ouvido, a musica.
Com o progresso humano, o sentimento artistico da symetria e da harmonia destacou-se analyticamente da arte de amar. E, depois da arte primordial, descendente immediata do instincto erotico, da qual se desprendera, sob a fórma selvagem das interjeições primitivas, a arte da eloquencia; e em seguida, sob a forma de expressões homometricas, a poesia popular e a primeira musica; nasceram as artes intencionaes, de imitação, da esculptura, da architectura, do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou heroica, veio a rhapsodia.
Ainda mais, segundo um traçado naturalissimo de filiação, o sentimento da symetria, trasladado para a esphera das relações sociaes, serviu de plano á organisação das religiões, filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias de fracos. Com o predominio insensato das religiões, o amor deixou de ser um phenomeno, passou a ser um ridiculo ou uma cousa obscena.
Por um raciocinio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade é a organisação symetrica da fraqueza commum, que a religião é a organisação symetrica do terror, que a symetria, isto é, harmonia e proporção, é a norma artistica das imitações plasticas da ingenua admiração da creatura primitiva, e que esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa de desenho ou de estatua, por um canto popular ou por uma interjeição vehemente, nada mais é do que um modo accentuado de um esforço de attenção, e que a primeira attenção dos homens do principio,—a lenda de Adão que o diga,—devia ser do individuo de um sexo para o individuo de outro sexo, teremos averiguado o aphorismo paradoxal de que a arte subjectivamente, o sentimento artistico, nas suas mais elevadas, mais ethereas manifestações, é simplesmente—a evolução secular do instincto da especie.
Esta é a sua grandeza, e por isso vae zombando, através das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição, dos proprios exasperos homicidas do amor.
A arte é primeiro espontanea, depois intencional.
Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento, e faz o amor concreto, a interjeição, a eloquencia rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde, progressivamente, por effeitos de calculo e meditação e dá o epos, a eloquencia culta, a musica desenvolvida, o desenho, a esculptura, a architectura, a pintura, os systemas religiosos, os systemas moraes, as ambições de synthese, as metaphysicas, até as formas litterarias modernas, o romance, feição actual do poema no mundo.
As manifestações espontaneas são coevas de todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desapparece, nem a eloquencia, ainda menos o amor. As manifestações intencionaes, ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacillações de tudo que progride.